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segunda-feira, 2 de julho de 2012

Maybe This Time - Cabaret

Esta música representa o meu momento, tal como eu uso os relatos para voltar tempo. No futuro a escutarei e relembrarei dos sentimentos conflitantes desta época. 

A internet e especialmente o Google se tornaram uma extensão da memória, posso ver no futuro chips implantados em nosso corpo que propiciarão toda esta extensão do conhecimento e a quebra da barreira das idiomas e assim a humanidade encontrará a paz e o conhecimento levará o homem as estrelas. 

No meu pensamento a maior viagem que fazemos é pela nossa mente e a melhor sensação é o amor. Mesmo assim os tigres rugem a noite.

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Talvez dessa vez, terei sorte
Talvez dessa vez ela ficará
Talvez dessa vez
Pela primeira vez
O amor não vá rapidamente embora


Ela vai me segurar rápido
Enfim estarei em casa
Não mais um perdedor
como da última vez
e da vez anterior

Todos amam um ganhador
Então ninguém me ama
'Senhor tranquilo, Senhor feliz.'
É o que eu quero ser
Tudo conspira ao meu favor
Algo está prestes a acontecer
Vai acontecer, acontecer alguma vez
Talvez dessa vez eu ganhe


 

I Dreamed A Dream - da peça Les Misérables

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Eu sonhei um sonho num tempo que se foi
Quando as esperanças eram elevadas e valia a pena viver
Eu sonhei que o amor nunca morreria
Eu sonhei que o tempo seria indulgente.
Eu era jovem e destemido.

Quando os sonhos eram realizados e usados e desperdiçados.
Não houve resgate a ser pago,
Nenhum desconhecido canção, nem vinho não degustado.

Mas os tigres vêm à noite,
Com suas vozes suaves como trovão,
Como eles despedaçam sua esperança
Enquanto eles tornam seus sonhos em vergonha

E ainda assim eu sonhei que ela voltaria para mim
E nós viveríamos os anos juntos,
Mas há sonhos que não podem ser
E há tempestades que não podemos prever.

Eu tive um sonho que minha vida seria
Tão diferente deste inferno que estou vivendo
Tão diferente agora daquilo que parecia
Agora a vida matou o sonho
Eu sonhei.



 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Mulheres

08.02.2012
Hoje foi a despedida final da Iara, quarenta e dois minutos de conversa por telefone para ouvir o adeus final, necessário!

Eu digo sempre que o meu momento combina com uma música e assim para os outros também, uma boa maneira para O Mentalista captar o pensamento das pessoas e assim foi quando a Iara arrumando suas coisas na primeira mudança daquilo que seria a maior transformação nas nossas vidas assobiava alegremente.

Hoje desligando o telefone tenho uma certeza maior que nada foi deixado para trás.  

Parece que eu sabia
Que hoje era o dia...

Quanta gente vive a mesma coisa que eu vivi, alguns compõem músicas sobre isto e eu tento escrever.
Sinto-me em paz, desta vez não ouve brecha ou mal entendido, não houve um porque deixei de falar isto e resolvi escrever sobre as mulheres da minha vida.


Carmen
Primeiro ano do primário no Instituto de Educação do Paraná, por algum motivo fui para uma classe separada para alunos com deficiência, era um bando de capetas sim onde brigas ocorriam o tempo todo onde até um lápis tinto foi enterrado na minha cabeça deixando uma depressão e uma extensa cicatriz que trago até hoje. Mas lá também havia a Carmen e com ela nos fundos da escola em um depósito eu vi a sua vagina e ela meu pênis, a conversa era você urina e eu vejo depois eu.
Não foi amor e sim descoberta e não é esta a direção que desejo me expressar neste relato, porque sexo é sexo e se estamos aqui é porque qualquer coisa viva só pensa nisto senão viva não estaria. Eu desejo sim expressar é quando o amor foi o chefe.


Maria
A partir do segundo ano primário já estava na sala dos normais e curiosamente naquela época os melhores alunos eram visíveis na sala de aula, porque sentávamos em ordem dos resultados escolares, uma maneira de premiar aos que se destacavam e na minha vida escolar digo que sempre sentei na primeira fila com exceção do Colégio Estadual do Paraná na aula de desenho aonde eu ia para os fundos porque minha paixão pela professora Gladys era alucinante e lá atrás eu chegava a me deitar no chão para enxergar por baixo da sua saia aquilo que se tornou o meu maior fetiche na vida.
A Maria me acompanhou nesta etapa, sentava-se quase no fundo encostada a parede, branca de cabelos pretos, roliça e macia, meiga. Amor nunca declarado, mas em qualquer oportunidade encostado. Minha primeira música ligada a uma mulher e o nome da música era Maria tocada por orquestra e coro. Lembro-me que na época fazia sucesso a música do filme Exodus porque aí peço auxilio aos universitários do ano sessenta, não consegui achar nada na internet por falta de dados e o Google não aceita Maria lalálarã lalálarã Maria...
02/07/2012 - Uma universitária ajudou e está aí

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Regina
Parece um salto enorme e o é, depois da Maria não houve uma mulher que eu conjugasse o verbo amar embora sexo fosse um cotidiano em todas as formas e coerente com o possível e o quase impossível da idade.
Acho engraçado quando comentam que antigamente era diferente neste sentido, minhas lembranças fazem a atualidade parecer casta embora o correto seja dizer que tudo continua igual, menos a tecnologia.
Fui para Passo Fundo em uma feira de ciências e cada um do grupo se instalou em uma casa de família e já no primeiro dia conheci Regina.
Ela foi à primeira mulher que namorei de fato, que beijei com o sentimento forte que o beijo oferece sem estarmos focados somente em uma ânsia sexual e nestes poucos dias nós vivemos uma deslumbrante descoberta do amor próximo.



Um relato mais completo deste momento está neste endereço 



Maria Helena
Este é um episódio que não retrata muito amor da minha parte sendo que ao contrário ela me amou profundamente.
Maria Helena (Tuca) surgiu na minha vida quando entrou na oficina de motocicletas em que eu estava fazendo manutenção da minha. Era uma menina mulher que mais adiante poderia compará-la sem muito erro a Gabriela interpretada pela Sônia Braga só que mais nova. Pediu uma carona e o resto aconteceu. Pela primeira vez o sexo apareceu no namoro. Era agradável. Só a facilidade aliada a uma situação esdrúxula de ela me abastecer financeiramente surripiando fortemente o dinheiro da sua avó fez isto continuar. Com a sua gravidez a situação rompeu-se e pouco mais fui para o exército. Na volta reatamos e fiquei aprendendo um pouco do que é ter um filho pressupostamente meu (na verdade tinha a cara do César um vizinho dela). Este pedaço da vida pode ter pouco significado no sentido amor, mas foi justamente neste segundo período que conheci um amor intenso, uma mulher maravilhosa chamada...


Vera
Fazendo um bico com o meu pai no ramo de representações fomos fazer a praça de Paranaguá. A noite se dirigindo ao hotel passa por mim uma menina linda e imediatamente avisei meu pai e fui atrás dela.
Passamos uma noite maravilhosa e até hoje guardo na memória em que o hotel que ficamos era de uma escuridão absoluta sem luz no quarto, pelo menos a miséria que eu carregava no bolso pagava a estadia e a entrada nós fizemos a luz do isqueiro, vantagem de ser fumante. O fato é que esta moça se molhava estrondosamente e eu nadei nos seus prazeres. Quando acordo pela manhã e acendo o isqueiro para ver as horas já eram mais de oito e nosso primeiro cliente do dia que era o seu João da Casa Irmãos Said estava marcado as oito. Com um rápido Como faço para te encontrar? Moro perto do Corpo de Bombeiros. Volto no fim de semana e irei te procurar lá, tchau, tchau. Voei até a loja e quando entro meu pai e seu João já estavam trabalhando e ambos me olharam de uma maneira estranha que me fez imediatamente acompanhar o que eles estavam vendo. Eu estava com sangue nos cabelos, na cara, nos braços e no resto do corpo embora este estivesse vestido. Todo aquele universo liquido que eu associei com orgasmos sem fim era a menstruação dela. Bom, de fato até hoje eu falo: comida e mulher eu gosto ensopado e carne tem que ser sangrando.
Já no fim de semana reunindo os raríssimos caraminguás peguei o trem e voltei a Paranaguá. Revirei a zona do Corpo de Bombeiros, entrei em todos os bares, andei na parte das casas e nada e não saber o nome dela piorava a procura. Talvez dez onze ou meia noite eu desistisse e fui até a estação ferroviária para ver se tinha trem à noite para Curitiba e lá na frente da estação estava ela.
Qual um filme americano de amor nós passeamos pela madrugada de Paranaguá, nas praças, na praia, brincamos de entrar pelos túneis de esgoto perto do mercado e com o sol nascendo procuramos um hotel. Pela primeira vez o amor se fez completo em mim.
Vivemos intensamente, ora em Paranaguá, ora em Curitiba, não existia mais nenhum hotel na Riachuelo ou nas espeluncas de Paranaguá que não nos conhecesse. Nossas refeições eram qualquer coisa, mesmo em frio intenso nossa vontade de ficar juntos superava qualquer adversidade.
Com lágrimas nos olhos escrevo que a maior experiência que é possível viver é amar e ser amado incondicionalmente.
Era inevitável em nossa ignorância, veio ao mundo o senhor Eduardo Souza Leopold e com ele o caos.

Eduardo


Eduardo e eu, no fundo a casa da sua mãe Sra. Cúnegundes e na varanda o seu irmão

Esta constância de vida em ambientes encardidos acabou acarretando em mim e na Vera uma doença de pele terrível que associada à luta das despesas da criação do filho na casa da sua mãe na Vila Portuária acabou acarretando conseqüências outras. Uma delas foi que nas segundas feiras eu sempre estava muito cansado e em uma delas deitei-me no sofá da sala e dormi. Meu pai em dia talvez também alterado me acordasse com algum resmungo tipo se aquilo era hora. Pela primeira e única vez eu levantei a voz para ele e imediatamente com uma vergonha terrível fui para o meu quarto e fiz minha mala dando um adeus definitivo e fui morar em uma pensão.
Um intervalo: Nesta época eu era representante da Artex de Blumenau e passado uns dez dias deste acidente estava eu trabalhando na casa Hermann na Carlos de Carvalho e meu pai passou e cruzamos nossos olhares, sem palavras nos aproximamos e nos abraçamos.

Amor, saudade e remorso até o meu fim.

Com as despesas aumentando nada mais funcionava e sem me lembrar como foi acabou acontecendo um ponto final.
Não tenho fotos da Vera, em meu cérebro a sua imagem está tatuado permanentemente, se fosse dizer com quem ela era parecida seria com a Liza Minelli.


Marisete
A vida na pensão sem os encargos da paternidade embora a falta de dinheiro fosse constante acabaram fazendo um período diferente e totalmente inconseqüente. Vida pagã menos no trabalho. Curiosamente na minha vida mesmo fazendo coisas totalmente censuráveis fui um aluno exemplar, um soldado idem e no trabalho fiz o meu melhor sempre.
Mulheres no centro de Curitiba nem se pensava, elas existiam de todas as formas possíveis e com todas as facilidades embora nenhuma resultasse em amor como eu conhecera com a Vera.
Neste período acabei saindo da Artex e fiz uma sociedade com o meu pai na empresa de Representações assumindo a região do sudoeste do Paraná e atirando também no norte e em Santa Catarina.
Um dia pela manhã indo buscar meu carro no estacionamento para ir a Paranaguá trabalhar eis que um cachorrinho vem por trás e me morde a canela, no susto me virei e lhe atirei um pontapé que errei só que meus óculos voaram e quebraram. Dia de sol peguei o substituto que era escuro e na passagem encontrei meu irmão Frederico casualmente e pedi a ele que me fizesse o favor de levá-lo para conserto na Boa Vista.
Quando fui buscá-lo a tarde não era a pessoa que normalmente me atendia e sim uma mulher baixinha com olhos brilhantes, um sorriso resplandecente e uma alegria latente. Eu moro sozinho aqui perto, quer ir conhecer? Sim.
E no meio de tantas mulheres com ela foi diferente e depois de um longo tempo sem fazer a pergunta, perguntei – Nos veremos amanhã? Sim.
E depois, e depois...
Já não havia outras mulheres, pelo menos não as procurava e as habitues aconteciam sem nenhuma empolgação ou gentileza. Uma cena curiosa que a Marisete vai se relembrar foi em um domingo: Neste dia ela tinha um piquenique com o pessoal da Ótica Boa Vista e no sábado eu iria jogar baralho então não se encontramos. Antes de eu ir estava na frente da pensão quando passou uma mulher linda, grávida e com o rosto molhado de lágrimas. Ela era do Rio de Janeiro e tinha vindo a Curitiba procurar seu namorado. Dei-lhe suporte e conversamos bastante, era uma mulher visivelmente vinda de uma boa estrutura familiar inclusive comentou que era neta ou bisneta do Marechal Floriano Peixoto. Sem nenhuma necessidade proeminente deixe-a no meu quarto e a desfrutei de madrugada na volta do jogo. Nós dormindo e quem chega foi ela a minha doce Marisete que com calma expulsa a carioca do meu quarto e sem trocar palavras a substituí.
E assim foi um tempo sem tempo e a vida sendo levada com a energia da juventude até...
Estou grávida. Grávida? Imagino uma alternativa para o que ocorreu. Não querendo perde-la e sem saber exatamente o que fazer eu fui à casa dos meus pais e encontrei primeiro o meu pai. Contei a situação e ele perguntou o que eu desejava fazer e aí eu disse que casar poderia ser bom (Nesta época eu já freqüentava a casa dos pais dela e do meu sogro fui um grande amigo). Meu pai achou que sim e assim foi. A alternativa que mencionei acima seria se eu tivesse encontrado a minha mãe, seguramente ela indicaria o aborto.
E assim aconteceu em junho de 1.975 nos casamos. Em outubro Dennis Leopold se fez presente.

Três meses após nova gravidez e em outubro de 1.976 Sammy Leopold.



A vida se tornou um contínuo de responsabilidades, filas homéricas de embalagem de leite e sopas Nestlé acumulavam embaixo da nossa casa. Médico, roupas, supermercado, escola, trabalho, trabalho até...

Até eu transformar isto em um inferno inenarrável. Não me lembro até esta época de ter tido ciúmes, sexo era algo tão cotidiano que fidelidade nem constava no meu dicionário e nem do dela. Mesmo casado no começo isto não perturbava, só que então enxergando o panorama completo caiu à ficha com a pergunta; Por que raios os filhos eram meus? No campeonato dos espermatozóides só os meus foram vencedores?

E a desconfiança criou força e os crimes passionais estampados na primeira página da Tribuna passaram a ser nossa realidade possível.

Esta situação se arrastou para mais de cinco anos quando a separação efetivamente ocorreu. Alguns anos depois o teste de DNA que era absurdamente caro mais o Dr. Rui Pilotto que fazia a coleta para enviar a um laboratório nos Estados Unidos confirmaram que o Schumacher e o Vettel efetivamente tinham ganhado a corrida. Era muito tarde para colar algo tão estilhaçado e a minha vida já estava em outro rumo e nele permaneceria por quase trinta anos.
Mesmo descrevendo esta parte ruim do relacionamento hoje efetivamente me vem forte na memória as coisas boas como a sua enorme alegria em viver e fazê-lo comigo, o seu carinho e esmero na cozinha e no cuidado da casa, sabendo que eu gostava de patê de fígado não se contentou em comprá-lo pronto e sim comprava a carne e o fazia em casa, delicioso! A maneira que nos compartilhávamos sem nenhum pudor de todos os nossos cheiros e gostos, degustados com grande prazer! Nosso amor pode ter sido uma coisa brutal como no filme Calígula, mesmo assim foi amor.

Toda forma de amar vale a pena. Não se preocupe com a sua
Deve ser por isso que existe amor que nasce meio quadrado, meio sem querer
Que existe triângulo amoroso e amores que andam em círculos
Porque o amor, não importa a forma, tem o privilégio da juventude
Amor, não envelhece com a gente. Nunca muda
Nem na essência e muito menos na alma
O que às vezes muda é só a forma de amar
Mas de amar, o amor de sempre.*



Iara
Meu nome é João e meu sobrenome é trabalho. Vinte e oito anos de idade com uma dívida de Cr$10.000.000,00 sendo que tudo o que eu tinha pelo preço de venda chegaria a Cr$6.000.000,00.
A Iara antecede no tempo a isto, ela já era gerente da loja indicada por aquela que é minha especial amiga, irmã e ex-sócia Solange Tambosi.

Solange Tambosi – Ela é uma história completa na minha vida, nossa amizade e a confiança que temos um no outro é uma das coisas mais belas que aconteceram comigo!


A minha vida profissional é outra história e só a menciono aqui porque ela foi o ingrediente principal para compor aquilo que iria acontecer.
A lembrança dela nesta época aparece com uma situação curiosa, na loja um dia a Iara veio trabalhar com um collant muito decotado e eu pedi que ela não usasse mais aquilo na empresa, no futuro aquele choque me fez sempre procurar uniformes discretos que culminaram em uma bela camisa que tudo escondia porque uma profissional que precisa exibir um corpo para trabalhar não é a profissional que eu quero trabalhando comigo.
Outra situação que me deixa a lembrança da Iara nesta época foi causada pela Marisete. Neste tempo era comum eu pegar o cigarro aceso de alguém no cinzeiro e fumá-lo e um deles acho que era dela o apaguei em meu cinzeiro do carro, no filtro marca de batom. A Marisete viu e urrou, a premissa que era um cigarro da Iara ficou por ter sido esta a maior possibilidade. Curiosamente mais adiante a Marisete culpou violentamente a Iara pelo término do nosso casamento e até porque efetivamente eu tinha casado com ela. Então Marisete agora que não tenho mais nenhum motivo possível para mentir escrevo dizendo que nada, absolutamente nada existiu antes e como as coisas aconteceram vai aparecer mais na frente.
Com a separação da Marisete e eu dividindo o meu tempo entre a loja e o escritório de representações eu optei por me dedicar só ao comércio varejista. Em 1978 quando abri a empresa conversei com a irmã da Marisete a Sra. Janete Chiuratto da Luz para ser minha sócia, ela trabalhava de vendedora no supermercado Jumbo e entrou sem parte financeira, os cinqüenta por cento que lhe couberam seria para que a sua presença fosse diária em quanto eu continuaria com o meu outro trabalho.
E a Jane foi uma ótima sócia só que com a separação e mais a minha decisão de ficar no comércio passei a ela uma loja completa e estocada e fiquei com a outra assumindo o ativo e o passivo que gerou os valores acima.
A Iara não mais trabalhava comigo e sim numa cooperativa de leite, nos encontrávamos porque ela era cliente e assídua da loja. Até então nada havia entre nós, um companheirismo igual ao que eu mantinha com o grupo de trabalho.
Um dia o grupo da loja mais a Iara marcaram uma viagem para a Ilha do Mel e por coincidência aquele fim de semana eu iria descer ao litoral para vender algumas caixas de bronzeadores então se desse tudo certo para mim se encontraríamos na entrada de Pontal do Sul.
Deu certo porque vendi todo o estoque à vista para o primeiro cliente que visitei. Neste grupo ia uma pessoa que eu estava bastante interessado, uma pessoa inteligente, articulada que eu já projetava como meu braço direito na loja. Além disto, tinha uma imagem muito semelhante a da Maria, meu amor do Instituto de Educação.
Já na ilha o pessoal contratou um barco para nos levar ao outro lado, da minha parte eu decidi ir a pé contornando e eis que a Iara propõe a ir junto comigo. Mais adiante o pessoal entrou no mar e eu não e quem ficou junto, a Iara. Subindo, descendo, andando de lado eu ia falar e quem estava junto a Iara.
Recentemente eu soube através daquela que eu desejava na época que as coisas foram premeditadas, ela era muito amiga da Iara e tinha recebido uma confissão dela sobre o interesse a mim. Nada era coincidência e isto explica porque ela sempre carregava livros quando ia trabalhar já que os que me conheciam sabiam que eu era e sou um leitor compulsivo.
Nossa primeira vez foi sem graça, não havia nenhum sentimento maior da minha parte.
Um interesse maior e aí sim o primeiro foi quando eu com uma vértebra fraturada, engessado do pescoço até a altura da virilha, morando em um quarto/banheiro. Eu recebi a sua visita e pedi a sua ajuda. Esta lembrança sim ficou escrita em pedra e foi um marco importante para as decisões que tomei depois.
Conhecer a sua família foi outro fator importante, a empatia que tive pelo seu irmão Ubirajara (Bira) foi muito forte e tal como peças Lego fui montando uma idéia.
Fui muito claro com ela, gostava dela sim embora um pouco distante do que eu conhecia como amor, gostava muito da união da sua família e acima de tudo algo muito profissional.
Eu precisava estar casado por causa da empresa, as pessoas que eu queria estivessem comigo teriam que ter o perfil: Casadas e bem casadas e com famílias estruturadas. Agora eu solteiro jamais teria possibilidades disto acontecer porque se uma mulher desta viesse trabalhar comigo e o marido aceitasse também não seria a profissional que eu queria. Antes eu tinha a Jane como sócia e isto equilibrava. Sozinho a situação era diferente.
A Iara aceitou isto e mais, sem filhos e ela teria que fumar.
Meu palpite era que o amor viria com o tempo como de fato ele veio muito rapidamente e arrendou por todos estes anos meu sentimento.

E foi dada a partida com a benção do Padre Emir Calluf. Para um ateu e casar assim para agradar a quem seria meu grande amor a escolha de quem consagrou a união foi perfeita. Leia neste endereço sobre ele e quem o conheceu sabe. http://www.gazetadopovo.com.br/colunistas/conteudo.phtml?id=1165000




Eu estava começando a subir a montanha e ela a descer.
Narrar a minha vida com a Iara não cabe em páginas, um livro, e um livro realmente grande talvez cumprisse uma parte dela.
Vivemos e como vivemos com uma exceção todo o resto fizemos juntos e até o primeiro cume de montanha alcançamos juntos.
Na fotografia do beijo eu digo que estava começando a subir na escala do amor e ela estava descendo e só atualmente eu enxergo o quadro completo apesar dele começar a receber as primeiras tintas alguns meses após o nosso casamento.
O ponto final deste livro foi digitado, o filme chegou ao seu final e a atriz principal recusa-se a fazer um novo capitulo.
"Já tive mulheres de algumas cores,
De várias idades, de muitos amores.
Com umas até certo tempo fiquei.
Prá outras apenas um pouco me dei.

Mulheres
Para as mulheres que pintaram as cores no quadro da minha vida, para elas que em algum momento por minha causa se sentiram bonitas, inteligentes e brilhantes e seus olhos viram em mim um rapaz lindo e maravilhoso, uma música que diz isto:
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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Do not cry for me Argentina, I'm back.

10.12.2011

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"...Não chore por mim Argentina
A verdade é que eu nunca te esqueci
Durante os meus dias selvagens
Minha louca existência
Eu mantive minha promessa
Não manter sua distância..."

 

Hoje inauguro este relato que irá descrever uma viagem em comboio ao fim do mundo de motorhome.

 

Tudo começou quando o Carlos Martins um amigo de gosto comum para motorhome me escreveu perguntando coisas da Argentina e Chile porque ele e uns amigos estavam planejando fazer esta viagem em comboio. Respondendo me veio à saudade de visitar novamente e perguntei se me aceitavam como companhia e a resposta foi positiva.

 

Este relato vai confrontar uma situação que tem muitas coisas para dar errado, a própria viagem em muitos equipamentos (o previsto até agora: Um motorhome Mercedes 915 Trailemar, um F4000, uma Renault Trailemar, uma Iveco, um caminhão home e o meu que é uma Scania da Industreiler) o que gera uma logística de viagem bastante complicada. Fácil de entender: Passe na fronteira multiplique pelo número dos viajantes: por água na casa, fazer xixi, etc., além disto, a viagem coincide com as férias e aí... As estradas estarão lotadas e cada um terá a sua maneira de decidir ultrapassagens, as filas nos restaurantes, abastecimento, são tantos variáveis que só as vivendo saberei.

 

O destino será o Ushuaia, quanto às costuras não sei por que não participo dos planos e nem conheço os participantes.

 

Vou com o espírito de aventura, boa vontade e sem calendário.

 

25.12.2011

 

Estou parado no posto Guarany logo após a saída do contorno sul de Curitiba aguardando o Carlos e a Débora que estão vindos de São Paulo.

Saí de São José dos Pinhais com 49.507 km.

Minha situação atual me é inédita, não tenho nada, absolutamente nada de compromisso para o presente e para o futuro, o último que era a minha mãe encerrou-se dia 31 de outubro com o seu falecimento. A empresa eu vendi no inicio do ano e nem endereço fixo tenho agora. Ainda escolho o lugar que será o meu porto embora saiba onde ele devia ser, mas para isto eu fico dependente da decisão de outra pessoa a quem dedico este relato.

O ponto de encontro de todos ficou definido em Mar Del Plata onde assistiremos a largada do rali Dacar que neste caso será Mar Del Plata/Lima. Os outros companheiros irão se encontrar em Piçarras e farão o passe de fronteira em São Borja. O Carlos e eu faremos isto em Foz entrando na Argentina por Puerto Iguazu.

Posto Guarany na rodovia do Café ponto de encontro e início de viagem.

 

Viagem tranqüila e lenta tanto que paramos para dormir no posto Três Pinheiros.

 

Foto by Débora

 

26.12.2011

 

Saímos bastante tarde e isto é o primeiro teste de tolerância, pois os hábitos divergem completamente, enquanto eu acordo cedo o casal ao contrário. Vim preparado para isto até porque quando estivermos em quatro motor homes a coisa irá agravar bem mais.

Passamos por Cascavel na hora do almoço e não perdi a oportunidade de ligar para o Diogo Pachenki o nosso piloto no Stock Car para almoçarmos juntos.

 

Da esquerda: Débora, eu, Diogo, Jairo e Carlos.

Em Foz Carlos e Débora foram fazer compras no Paraguai enquanto eu tirava uma soneca, depois abastecemos e já dormimos no posto para fazer a fronteira amanhã.

27.12.2011

Novamente conflito de horário, mas escrevo isto apenas para mencionar, pois vim preparado para isto e muito mais. Adoro o amanhecer na estrada, luxo este que nesta viagem terei que dispensar.

Na fronteira fiz minha saída do Brasil rapidamente (Carimbam o passaporte a pedido) e quando voltei ao estacionamento o casal ainda não tinha saído do motorhome então só os avisei que já iria à frente fazer a alfândega argentina.

Muito fácil a passagem e muito atencioso o atendimento, a conversa girou sobre automobilismo e a revista foi superficial, eu saindo o Carlos já estava na fila, por rádio o avisei onde eu estaria lhe esperando um pouco além em um posto ACA YPF que fica 500 metros após a fiscalização.

Estou escrevendo neste momento porque já estacionado adiante o Carlos me avisou que tinha perdido a carteira de vacina e aí a coisa ficou critica, eu o ouvia e ele não me recebia. Falou que ia voltar para Foz para se vacinar novamente enquanto eu urrava no microfone que esta carteira não é necessária. Então são nove e trinta ainda pelo horário brasileiro de verão e já estou com dois cafés tomados, fotos transformadas para tamanho menores, blog escrito, dinheiro já mudado para pesos e vou tomar mais um cafezinho.

Chegaram depois de pegarem uma segunda via da carteira de vacinação e daí com ele atrás não percebi quando virei para Posadas ele seguiu adiante. Na primeira fiscalização rodoviária parei (por conta não a pedido) para esperá-los e nada. Pedi a policia que o fossem procurá-los e assim o fizeram, quando voltaram me disseram que tinham ido até a fronteira e nada e que provavelmente eles pegaram o caminho das cataratas ou do aeroporto então só me restou esperar. Eles não perceberam que eu tinha virado e pior, estava com o botão de freqüência do rádio alterado o que dificulta a recepção.

Já estacionados alguns quilômetros depois de Paso de Los Libres depois de uma viagem muito gostosa pelas boas rodovias Argentinas digo que as pequenas diferenças de horário afetam muito pouco e são absolutamente compensadas pelo companheirismo. Agora um banho, cinema e cama!

28.12.2011

Atravessando a província de Entre Rios sempre muito divertida e emocionante com teatros montados passo a passo onde os atores somos nós e a fiscalização rodoviária. Volto a dizer que muitos brasileiros se incomodam barbaramente por isto e aceita as atrocidades brasileiras como destino. A Argentina nesta comparação é muito barata! Quem realmente não quiser passar por isto não entre nas províncias de Entre Rios e Corrientes, faça a fronteira em Foz e siga pelo meio da Argentina ou oeste, vai gastar mais em diesel do que em achaques, mas ficará com o consolo que as suas virtudes foram preservadas.

Agora são vinte e três horas e algo fantástico aconteceu: Para Mar Del Plata vindo de onde viemos cruza-se Buenos Aires pelo centro e o fizemos em pleno horário de rush (18/19h), impressionante o movimento e o mais ainda fora a beleza da cidade, um trânsito fluido e muito rápido tanto que na aproximação a velocidade permitida é 130 km/h e dentro da cidade 80 km/h.

Foto by Débora dentro de seu motorhome.

Isto mexeu comigo, mas o que me eletrocutou de fato foi na área de pedágio encontramos o primeiro caminhão do rali Paris/Dacar.

Mais adiante paramos para pernoite em posto da Petrobras e eis que começam a parar vários caminhões da competição. Só vendo para crer! assim como o automobilismo de competição tem seus personagens característicos de físico o rali também os tem, um pessoal gigantes e muito fortes não de academia e sim da própria natureza.

Hoje só foi uma troca distante de cumprimentos, mas só imaginar que os próximos dias eu estarei próximo a todo este movimento desta que é a maior competição do mundo no gênero já me dá a tranqüilidade que esta viagem está paga e todo o resto será lucro extra!

Ainda sem nomes, até amanhã, até amanhã...

29.12.2011

Pedi ontem à noite para o Carlos que abrissem uma exceção e saíssemos bem cedo hoje, somente esta vez frisei, mas tal não aconteceu e fiquei vendo os carros que irão competir passando na estrada. Acabei indo sozinho já com o sol nascido até porque iria ter que parar para abastecer e sobre esta curiosidade e outras eu comentarei em um capitulo a parte.

Agora estou no camping em Mar Del Plata chamado Complexo Calasanz e o Carlos já chegou também. Já sei que só virão mais dois equipamentos.

A incompatibilidade no timing do tempo e na maneira de guiar está me cobrando um preço e agora já me vem o pensamento que ir até o Ushuaia em grupo pode ficar um jogo muito duro para a minha tolerância. Imagino que em quatro equipamentos então isto vai se acentuar mais. Por enquanto a minha decisão já está de deixar o grupo e curtir solo abdicando de ir ao fim do mundo e indo direto a El Chaltén para ver de perto a montanha Fitz Roy. De lá ir para o Chile e ir ao Atacama para voltar pelo Paso de Jama.

Os problemas encontrados que estão me pegando além do fato de unir as vontades do grupo são: A despesa está muito além do esperado, o diesel na Argentina estão em média 25% mais caro que no Brasil, um café da manhã simples custa em volta de dezessete reais contra no máximo dez do Brasil, o pedágio que na primeira parte da viagem estava bom neste setor custa trinta pesos.

Outra coisa que está pegando firme é o péssimo atendimento e também a falta de combustível e isto é aqui que pode ser considerado o lugar mais rico da Argentina. Água até agora nada, para limpar o pára-brisa me ofereceram um balde com uma merreca de água escura e um parto para o caboclo entender que eu precisava de uma vassoura também. O frentista limpar nem pensar, eu pedi a um o favor em outro posto e ele limpou só um vidro. Nos outros se conseguisse abastecer já era uma vitória.

Aqui no camping também não tem água próxima então quando sair tem que levar o motorhome a outro local para encher a caixa e o resto da viagem será sempre decidida pela água que eu arranjar, como minha caixa é grande ela agüenta voltar até o Brasil.

Agora é meio dia e vou almoçar uma das três mil latas de atum com batatas que eu trouxe para estas eventualidades, depois banho um táxi virá me buscar para eu ir até onde o grupo do Rali está. Que eles tenham de sobra à energia e o animo para me darem um pouco porque é a primeira vez em trocentas viagens para cá que estou precisando disto.

Acabei indo tarde porque tirei uma soneca reparadora, a Janine que trabalha no camping nos providenciou um carro e o Carlos e a Débora foram juntos. Curtimos a intensa movimentação à distância e a noitezinha voltamos ao camping onde tinham chegado os dois outros equipamentos com as duplas Erydson e Euliane e Rogério e Edna. Primeiro contatos que se estenderam até tarde da noite incluindo uma janta deliciosa em que o Rogério fez uns bifes (Gengis Khan) com molho de gengibre e shoyo mais arroz e saladas.

30.12.2011

Onde eu estou parado no camping é muito distante deles e não tem água e hoje abriram o caminho para o meu ônibus passar assim me uni ao grupo. Agora estou muito bem instalado, o almoço foi um estrogonofe novamente patrocinado pelo casal pelo casal Rogério e Edna com a participação dos outros, da minha parte levei meu garfo e faca.

Sono bem melhor à tarde e sinto que estava vendo fantasmas que não existe, um sim que é a saudade daquela que eu amo e um dia partiu, ops isto dá música!

Agora um banho e depois todos nós iremos jantar no Cassino.

Rogério Marcolino e eu no cassino foto by Débora.

Tudo nos conformes sem céu nem inferno nós chegamos de madrugada em nossa base. Vimos onde vai ser dada a largada simbólica do rali para amanhã sabermos onde ficar.

31.12.2011

Deu na televisão que a largada será às três horas da tarde então combinamos de ir almoçar no centro e já ficarmos por lá. Enquanto isto nós ficamos trocando figurinhas e tudo está em paz. Conversamos ontem também sobre porque comboios como o nosso fracassam em viagens maiores, todos demonstram vontade e tolerância para as coisas darem certos e até agora o saldo é positivo.

Passamos à tarde no centro de Mar Del Plata onde teve show de aviação acrobática, desfile de banda e a largada simbólica do rali. O toque infeliz foi que roubaram a carteira do Erydson que felizmente por prever algo assim tinha deixado os cartões e documentos na casa.

video

 

Um dia lindo com um céu totalmente azul embora na sombra estivesse frio. O rali de fato larga amanhã às quatro horas da manhã e como são quase quinhentos competidores deve se prolongar por muito tempo.

Já estamos em 2012 e ceamos todos mais um casal argentino no camping. Tudo perfeito, a comida estava deliciosa embora eu me sinta um estorvo neste grupo tão alegre.

01.01.2012

Primeira manhã do ano nós nos juntamos para a foto oficial e para as combinações de viagem.  A idéia é percorrermos duzentos quilômetros e daí parar no primeiro posto para reunir o grupo caso alguém se desgarre.

Da esquerda para a direita: O casal simpático argentino Susana Falcone e José Luis Esponda, Carlos Martins e sua esposa Débora Rodrigues, o casal Erydson Jonco Aquino e Euliana Catarina Furlan Aquino, eu e ao lado o casal Edna Sirlei Gasparello Marcolino e Rogério Marcolino. Embaixo uma linda Schnauzer dos argentinos para relembrar a doce Tequila que pelo menos ela eu acredito sinta saudades de mim!

02.01.2012

Primeiro dia de viagem com os quatro equipamentos, uma pequena perturbação na saída porque o combinado no dia anterior de fazermos a partida, abastecido no YPF próximo não ficou bem entendido e depois na estrada onde o combinado era manter noventa quilômetros por hora velocidade que dois carros com controle automático o fazem com facilidade então bastaria os outros dois seguir, pequenas correções em comboio se fazem com os atrasados aumentando em cinco quilômetros, mas isto não aconteceu então na primeira parada os ânimos aumentaram de temperatura com insinuações que a minha velocidade era maior. Não era em momento nenhum, mas...

Invertemos as posições com o outro equipamento do Erydson na frente e aí eu percebi o que ocorria realmente em espaços limpos tudo estava perfeito agora se alguma coisa interferisse o retorno à velocidade cruzeiro demorava como eu faço a reação imediata quanto à volta da velocidade este detalhe me fazia abrir uma distância maior dando a eles a falsa impressão que eu estava mais veloz. Conclusão que algumas vezes eu tinha que usar freio ou manter a velocidade no pé. Também a questão de ultrapassagem, anos de experiência na estrada me fizeram ser muito decidido nesta questão e aí a diferença de tempo aumenta mais ainda.

A convivência em grupo me é inédita e não vale a experiência de comboio com o Stock Car que são ponto a ponto curtos e todos vão para trabalhar.

Outra coisa curiosa: Por duas vezes meu consumo foi inferior ao da Mercedes 915 revelando que a minha Scania com treze toneladas está fazendo um consumo acima de seis quilômetros por litro que é uma coisa inesperada.

Visível que o maior problema nesta viagem é eu mesmo, todos estes anos viajando somente com a Iara ou sozinho talvez não fosse só pelo meu gosto e sim pela dificuldade que eu tenho nos relacionamentos, um exemplo disto é alguém me cumprimentar com um como vai você? a resposta que vejo todos aplicarem é tudo bem, já eu fico atordoado porque quero responder literalmente a minha sensação no momento ou nos momentos anteriores, isto é uma boa definição para um chato de galocha. Também não aceito conversas com teor de realidade e que sejam feitas sem realmente a pessoa pensar o que está falando, um exemplo comum é a menção de coisas religiosas, arf! acreditar em Jesus quando todos sabem que Oxossi reina absoluto hehehe.

Um brinde ao meu amigo Nelson Umbria que me traz a sanidade já que ambos caminhamos com os pés no chão. Cito-o por ser uma pessoa próxima porque espalhados pelo mundo comungo a minha visão com Carl Sagan, Richard Dawkins, H. L. Mencken e tantos outros.

Olhando por este prisma acho que entendo o que a Iara passou convivendo comigo tanto que depois que ela se separou duas atitudes ela tomou, parou de fumar imediatamente e já se envolveu com espiritismo, que o zefinho preto velho lhe faça boa companhia porque mesmo que eu a ame profundamente não consigo imaginar uma idiotice maior, pensando bem posso, mas esta já é de bom tamanho.

Com esta visão mais clara sobre mim e as coisas que me cercam me volta à idéia que esta minha participação no mundo já está completa. Vivi e fico muito feliz com tudo que vivi encontrar algo que me faça ter vontade de continuar e ainda assim eu poder continuar sendo o que eu sou me parece uma tarefa muito ingrata e já me basta saber que nesta contagem decrescente da vida a única coisa garantida é as dores da velhice.

Escrevo isto estacionado no Camping Colorado na municipalidade deste mesmo nome. Os companheiros irão assar umas carnes e eles foram até a cidade comprar os ingredientes visto que quando se entra na Patagônia tudo que é animal e vegetal é retido nesta fronteira.

O camping é excelente e vale a pena acomodar os horários para usufruí-lo. Eu optei em não participar do jantar hoje ficando no motor home para escrever. Tem mais este conflito de eu estar só na companhia de três casais e acredito que amanhã isto terminará com eu me despedindo e fazendo o resto da viagem solo e explico o que mais me leva isto, eu me convidei porque tinha certeza que uma pessoa viria comigo e infelizmente algo aconteceu que eu tive que recusar, eu procurei mais três senhoras que tinham esta possibilidade e ambas tinham seus programas prontos e somado a isto tive um contato mais próximo com a Iara antes do natal e ela aceitou que conversássemos na volta. Então para preservar minha pureza...

É um sonho egoísta este meu de voltar a tê-la em minha vida e isto voltou a disparar somente porque por ocasião do funeral da minha mãe a sua mãe comentou com uma terceira pessoa que nós se amávamos e isto me fez pensar que talvez fosse realidade por parte dela já que da minha parte eu tenho certeza, mas mãe é mãe e mesmo que também tenha umas idéias religiosas escabrosas na cabeça é muito mais pé no chão e enxerga no convívio amoroso entre duas pessoas uma grande dose de sacrifício para a manutenção da união. O fato é que a Iara não tem esta dependência emocional de mim e nem financeira, nosso acordo na separação possibilita a ela uma vida tranqüila desde que ela não acabe doando toda a sua renda para o espírito do Xavier ou então para o pastor da igreja do quadrilátero do espírito santo. Então segunda a nossa sobrinha Alike quando perguntei a sua opinião (Pela internet) como estava a Iara ela comentou que nunca a tinha visto tão feliz como agora, então pelo amor que sinto a ela o meu presente além deste relato que a ela dedico e lhe dar completo sossego não mais a procurando.

Sobre amanhã: Quando os casais foram à cidade do Colorado fazer compras ficou o Carlos Martins e eu no camping e eu já o avisei que sairei cedo em direção a Puerto Madryn porque adoro o amanhecer na estrada. Combinei encontrá-los em um platô na entrada da cidade onde uma vez a Iara e eu passamos a noite com a cidade aos nossos pés. O que ele não sabe é que aí me despedirei deles.

03.01.2012

Quatro e trinta da manhã na estrada que já estava se iluminando, embora o sol aparecesse efetivamente as cinco e cinqüenta e um. Não aconteceu o que eu esperava e pior ainda nestes devaneios não percebi uma perdiz (talvez seja embora ela tivesse um corpo de galinha de angola e na cabeça uma tiara na forma de cabelo de moicano). Um choque que até o tempo parou ao enxergar os olhos dela e sentir o seu espanto. Tarde demais!

Café da manhã tomado e fui completar o sono.

Já estou encostado em Puerto Madryn em uma concessionária Scania. Eles abrem às duas e meia da tarde e vou pegar os endereços de todas elas na Patagônia. Estou parado bem visível na estrada caso o comboio passe embora meu feeling indique que eles não vão parar. Mesmo assim daqui irei para o platô combinado e passarei a noite lá. Amanhã me encaminho para Caleta Olivia onde irei ficar mais tempo já que tenho interesse em morar lá então verificarei preços de terrenos, construção, disponibilidade de água e outros.

São três e trinta da tarde e estou no platô combinado. Neste lugar a Iara e eu já passamos a noite para curtir a cidade iluminada, de fato só a vimos vagamente, pois choveu torrencialmente e interminavelmente. Então por ela colhi uma pedra e aí vai à foto.

Platô em Puerto Madryn com vista para toda a cidade.

A falta de combustível aliado a pouquíssimos atendentes fazem filas homéricas em todos os postos, hoje fiquei em uma porque com diesel não dá para esperar. A boa notícia é que os preços das coisas estão mais baixos aqui na Patagônia.

Eu nunca viajei em janeiro por causa das férias e a minha premonição se justifica com turistas e fila por todos os lados. O pior que isto impossibilita qualquer interação com os locais deixando um gosto de comida sem sal.

Seis e quarenta da tarde e eles não apareceram então isto resolve o nosso problema e amanhã pela manhã vou direto a Caleta Olivia. Viagem solo são meu destino e meu gosto com exceção de uma companhia.

04.01.2012

Wonderful Day! Assim exclama Richard Dreyfuss no filme A grande barbada depois de ter arrasado no jóquei e eu repito o mesmo após este especial trajeto. Como dormi cedo acordei bem disposto e senti o amanhecer ainda no platô:

 

Amanhecer em Puerto Madryn

Com o sol já brilhando parei em um posto YPF e toquem-se as trombetas havia café, verdade que só isto porque o resto do restaurante ainda estava fechado e fiquei feliz que pelo menos o atendente me arrumou dois bolinhos para fazer a mistura. Aproveitei e enchi o tanque de gasolina (aqui se chama nafta) do gerador sem filas.

Passando Trelew um pedido de carona prontamente atendido, era o Victor motorista de ônibus municipal que curiosamente trabalhava em Comodoro, uma excelente conversa assim como foi outra carona o Raoul que era bombeiro em Sierra Grande. Nesta imensidão plana dos Pampas uma cidade com este nome parece maluquice, mas na verdade a serra existe é pequena e muito bonita. Com o Victor a curiosidade foi que ele necessitava estar às onze horas no trabalho e aí foi um tiro só até Comodoro, dez e cinqüenta e cinco depositei-o na frente do local do seu trabalho.

Comodoro Rivadavia é uma cidade impressionante e hoje neste dia maravilhoso some-se um sol espetacular sem estar quente demais, um céu azul extraordinário, zero vento e o mar parado e com um tom azul tão forte como nunca vi igual. Estacionei minha casa no centro e dei umas voltas a pé esperando à hora do almoço.

Acho que há uma hora já estava a caminho de Caleta Olívia e que caminho, para não ser sacana ou acharem que estou exagerando vai aí uma foto e lembrem-se é um pedacinho e uma fotografia jamais é o que realmente nossos olhos vêem.

Enxerga-se o fundo do mar facilmente.

E cheguei a Caleta Olivia.

Minha cidade preferida na Argentina!

Entrei e estacionei no centro e já sai para conversar sobre como funciona a compra de propriedade por brasileiro e para isto um advogado seria um bom conselheiro e também um corretor de imóveis para ver se os preços são compatíveis com a minha pretensão. Bom, aqui é a Argentina de sempre ou até mais, próximo a quinze escritórios de advogados fui e todos ou trabalham a partir das dezessete horas três dias por semana ou estão de férias então daqui a pouco tomarei um banho e retornarei (São cinco horas e estou escrevendo). Só o cassino estava aberto, todo o resto estava fechado e adoraria pela comédia que seria se os restaurantes também fechassem para o almoço.

Fui até a praia que aqui não tem areia e sim pedras, imediatamente colhi uma para dar de presente para você Iara, pois foi junto com você que eu mencionei pela primeira vez o quanto tinha me agradado esta cidade.

A água estava tépida para os pingüins of course e as pedras mesmo que lisa é uma verdadeira tortura para os pés que se afundam em cada pisada. Porém a beleza compensa e a mais já fui a uma concessionária de quadriciclos Can-Am e escolhi um fantástico 800 cilindradas por $120.000, de resto é fechar negócio em uma casa e entender como funciona a emigração.

Em um olho mais clínico a cidade tem algumas coisas que merecem destaque como uma intensa pichação, obviamente os trogloditas que fazem isto esperam que milhões de anos no futuro alguém desenterrando possam perceber que havia uma civilização rudimentar aqui. Outro são as calçadas que cada loja põe a sua em uma altura então topada no pé são rotina.

Então vamos ao banho, advogado depois e mais ainda: Sinto que o vermelho 27 me chama e talvez o quadriciclo seja mais um presente neste belo dia.

Pensando melhor vou prolongar o que eu chamo a dança do banho para comentar o que era o principal deste blog se a viagem para cá em comboio é possível. Não o foi para mim e vou dizer antecipadamente que não será para nenhum dos casais. Neste nosso pequeno interlúdio foi fácil eles ficarem unidos porque havia um alvo fácil que era eu, mesmo assim olhando os comportamentos sem eu na mira (E eu merecia) digo que podem até se manter juntos por uma concepção primária de um deles que diz que nós estávamos em território inimigo, mas deixarão de usufruir muito, muito mesmo do que melhor a Argentina tem a oferecer e, além disto, as diferenças irão se acentuar e daí em vez de olharem as grandezas ficarão presos aos pequenos ódios armazenados.

Olha a dança do banho em ação, fui bater uma foto para mostrar o quanto no centro de Caleta Olivia estou parado e irei ficar. Duas quadras da praia, três do cassino, vários restaurantes a escolha e muitas lojas de tudo.

Ao fundo uma estátua gigante mostrando um operário da indústria do petróleo base econômica da região.

05.01.2012

Ontem nenhum advogado (escreve-se abogado) e nenhum corretor imobiliário no horário que estavam em suas placas em compensação já investi no cassino $1.200,00 em um torneio satélite de pôquer que perdi no final e justo para um engenheiro de construção em que nos cofee breaks trocamos figurinhas para ele construir para mim, além disto, tinha na mesa o chefe de polícia de Caleta e mais um companheiro que indicou uma situação possível com terras estatais bastando simplesmente eu dar um alô para a Cristina Kirchner. Como a mesma está solteira quem sabe não rola um tango?

Outro companheiro de jogo falou-me de um excelente camping no final da rua independência a caminho de Truncadas, o problema é que se ir para lá tudo irá ficar um pouco mais distante.

Escrevo isto as duas e trinta e cinco e acabei de chegar do cassino, a madrugada está deliciosamente gostosa de clima e o movimento da cidade ainda é bastante grande.

Dormir tarde quase sempre dia seguinte eu mal. Café da manhã nem pensar, nada aberto em Caleta então chocomilk e bolacha. Decidi ir procurar o camping e acabei indo para a estrada, o vento patagônico se apresentou para matar a saudade. Vou descer até o Ushuaia e El Chálten para clarear as idéias.

Parei para dormir duas vezes, sonhos confusos e muito ruins mesmo que parado o motorhome balance tanto parecendo um ninar de bebê.

São vinte e uma horas e onze minutos e o dia está completamente claro o que significa noites curtíssimas, estou parado na entrada de Puerto San Julian e neste YPF não me forneceram água e daí também não abasteci. Vou entrar na cidade amanhã e completar tudo. No momento o frio está de rachar.

Como vai você?
Eu preciso saber da sua vida
Peça a alguém pra me contar sobre o seu dia
Anoiteceu e eu preciso só saber
Como vai você?
Que já modificou a minha vida
Razão de minha paz já esquecida
Eu sei que gosto muito de você

06.01.2012

Estou em Rio Gallego estacionado frente a um supermercado Carrefour. A viagem tranqüila e com um vento de popa que significa quase total ausência de som de rodagem e baixo consumo de combustível.

Parei para comprar farinha, pimenta, detergente e água, em breve começarei a enfrentar as 2.000 latas de dobradinha embarcadas. Continuo parado porque já aproveitei para fazer a lavanderia e eles vão me entregar as roupas até as vinte e uma horas.

O combustível nesta região é muito mais barato, em Piedra Buena abasteci tudo incluindo água então passarei a noite aqui e amanhã em Ushuaia. Agora lavanderia muito caro.

07.01.2012

Estou parado no Estreito de Magalhães, a viagem de Rio Gallego é curta e rápida, a fronteira idem. A má noticia é que o restaurante que ficava aqui não existe mais então sem café arf! O frio está escandaloso! O estreito separa a Patagônia da Terra do Fogo.

Até agora nada de ser feliz e me questiono o que estou fazendo aqui. Tudo tem fila e todas muito lentas e ninguém têm tempo para nenhum tipo de relacionamento, talvez isto explique a mágoa de tantos brasileiros que viajam nesta época.

Estreito de Magalhães, visão a partir do antigo restaurante.

A boa notícia: Na balsa tem uma lanchonete com café e Pancho que é um nome para o hot dog.

Atravessando o Estreito de Magalhães.

Parado na fronteira Chile/Argentina no retorno.

Três vezes vim para o Ushuaia, na primeira a Iara e eu desistimos porque era tanto gelo na pista que quase certo o Paso Garibaldi estaria intransponível além de que dirigir no gelo é a coisa que mais se aproxima de um horror. No segundo maravilhoso e onde pela primeira vez em milhão de quilômetros de viagens escrevi um diário e agora solo desisti porque a estrada (+- 200 quilômetros de rípel) da parte de terra chilena está indecente e a velocidade que eu estava mantendo era aproximadamente vinte quilômetros por hora (eu e os caminhões que ainda eram mais lentos), e o bando de muriçocas (carros pequenos) passava em muita velocidade atirando pedras como se fossem centenas de estilingues. Para se ter idéia do respeito de quem conhece a gente na ultrapassagem ou no cruze diminui a velocidade para cinco quilômetros por hora, um pára-brisa quebrado é um ingresso para o inferno. Nenhuma segunda vez no Ushuaia vale este preço de dividir o espaço com este pessoal.

Neste momento escrevo parado na fronteira, atualmente só se faz uma aduana por divisa. A fila está gigantesca então talvez até durma por aqui.

Fila para quem vai à segunda aduana, quem vem não precisa parar nesta. Foto com zoom para evitar atritos possíveis.

Estacionado no pátio dos caminhões da segunda aduana, deve haver mais de duzentas pessoas na fila.

Daqui irei para El Chaltén cumprir o que prometi que ir perto do Cerro Fitz Roy, verdade que para isto ser cumprido integralmente a Iara tinha que estar comigo...

Estou curioso como está o comboio? Como eles são freqüentadores de encontros a possibilidade deles administrarem esta balburdia de turistas é bem melhor. A Iara e eu quando começamos a viajar para cá ficávamos horas sem cruzar com ninguém, a noite então ninguém viajava mesmo e nós saíamos da estrada para dormir no deserto. Um exemplo foi que passando a noite por uma cidade à direita sabíamos que lá tínhamos que encontrar combustível e não achávamos o posto. Quando estávamos nos preparando para voltar um carro nos alcança e nos sinaliza para parar. Ele desce e pergunta se estávamos procurando o posto, diante da nossa afirmativa ele avisa que o mesmo é dentro da cidade. Este é uma dos retratos deste povo maravilhoso e da Argentina de anos atrás!

08.01.2012

Parado em La Esperanza a caminho de El Chaltén aguardando a hora do almoço. Um dia nublado com poucos chuviscos e já um pouco excitado pela proximidade dos Andes.

Viajo com o Chico me fazendo companhia:

A sua lembrança me dói tanto

Eu canto pra ver

Se espanto este mal

Mas só sei dizer

Um verso banal

Fala em você

Canta você

É sempre igual

Sobrou deste nosso desencontro

Um conto de amor

Sem ponto final

Retrato sem cor

Jogado aos meus pés

E saudades fúteis

Saudades frágeis

Meros papéis

Não sei se você ainda é a mesma

Ou se cortou os cabelos

Rasgou o que é meu

Se ainda tem saudades

E sofre como eu

Ou tudo já passou

Já tem um novo amor

Já me esqueceu

A malha viária argentina é extraordinária, um tapete maravilhoso que me propicia navegar nos meus pensamentos. Seria muito, mais muito bom se houvesse um jeito de apagar a memória seletivamente, quanta dor desapareceria! Por outro lado mais da metade da minha vida foi preenchida pela sua presença então...

Minhas sensações explicam o meu gosto pelo filme O feitiço do tempo. Quantos anos o ator principal levou para tornar perfeito um único dia? Eu levei aproximadamente trinta anos amando-a a cada dia embora isto fosse insuficiente para entender como administrar este amor. Agora que penso saber já é tarde e o que sobra neste mundo é um pequeno pedaço de terra que me cabe neste latifúndio (plagiando Chico).

Vou almoçar porque aqui tem uma hamburguesa dupla que na foto dá arrepio de bom e deve ser com o pão argentino cuja massa poderia ser usada para fazer estradas de tão sólido que é. Mudei, comi um bife a cavalo com fritas muito bom. Antigamente o pão por aqui era massudo, atualmente não.

Parado novamente: Iara lembra-se quando a caminho do Calafate chegamos a um altiplano que se descortinava uma paisagem incrível? Pois parei aqui me lembrando de você. Você viu o Cerro Fitz Roy e eu fiquei em dúvida e era ele mesmo e estou indo para lá.

Na direita El Chaltén, na esquerda El Calafate, foto minúscula perto da real grandeza que os nossos olhos captam. 

Na Argentina isto é comum, centenas de quilômetros através do pampa e de repente acontece algo deslumbrante com uma mudança radical na paisagem. 

Na estrada de El Chaltén até duvidei da nossa vista para o Fitz, andei talvez uns cem quilômetros por aquele vale que vemos lá de cima e daí virei novamente formando um Z gigantesco o que explica como se enxerga do platô e tudo isto com paisagens monumentais e os Andes ao fundo decorando. 

Finalmente eu vi, sei que vi como diria o Piu Piu quando enxergava o Frajola eu vi o Fitz Roy, será, será... 

A foto abaixo foi feita algum tempo depois de eu ter achado que o via, a quarenta quilômetros de distância não havia mais dúvidas. 

 Cerro Fitz Roy a quarenta quilômetros. 

Nenhuma duvida! 

Embora o pico estivesse encoberto pudicamente a emoção tomou conta de mim de uma maneira absoluta, gargalhava enquanto lágrimas escorriam! 

Acho que neste instante dos conhecidos apenas o Tiaraju entenderia meus sentimentos. O próprio tem na sua agenda tentar o cume desta montanha e digo agora que estou parado aos pés dela que o desafio é imenso! 

Este parado aos pés dela é literal, hoje o cansaço da emoção me impede de sair e mostrar, mas amanhã de madrugada sei que o primeiro lugar que o sol irá bater será no seu cume e poderei assistir a isto da janela da frente da minha casa. 

09.01.2012 

O sol bateu sim, mas no edredom de nuvens que cobria completamente o Fitz Roy. Voltei a tirar uma soneca porque na Argentina até a montanha acorda tarde. 

Aparentemente ele vai dormir de dia também, pela quantidade de neve que se vê nas montanhas adjacentes lá em cima deve estar bastante frio. Fui para a cidade de El Chaltén e que bela surpresa, muito acolhedora! Parei para tomar um café em um lugar chamado La Morena. 

Aqui a interação é constante, motorhome de outros países e juventude as pencas e todas resplandecendo saúde. Volto ao café da manhã: Panquecas com peras, caramelo, nata e cerejas mais café com leite. Este é o mundo para o qual nasci! E os preços uma covardia de tão baixos. Na foto abaixo o meu desayuno, a companhia é um brinde, esta linda jovem chama-se Muriel e é de Punta Arenas, sua família está parada aqui por falta de gasolina. Meu motorhome está parado na frente e digo que até agora não tive nenhuma dificuldade quanto ao seu tamanho, impressionante como o vesti bem. 

 Soledad a moça que administra este restaurante me indicou o camping próximo chamado El Refugio e daqui escrevo. Quando clarear fotografarei minha posição, da minha janela direita o Cerro Fitz Roy ainda coberto. 

Agora irei dar uma volta a pé na cidade para entendê-la. 

Cidade pequena e muito linda, todas as necessidades de fácil alcance e digo ainda desconhecida da maioria. Há poucos anos atrás o caminho era de ripel e só agora está asfaltado então isto explica. A beleza da paisagem é descomunal. 

Colhi uma pedra para a Iara que queria juntar com uma camiseta muito engraçada escrita El viento patagónico, as letras assim como uma ovelha agarrada em uma arvore identificam esta marca registrada da Patagônia que são os ventos constantes e muito fortes. Infelizmente não havia o tamanho, só para chicos então a presenteada será a Joana. 

Não tem um passo que eu de sem sentir a sua falta então tenho que me esforçar para usufruir algum prazer. Hoje por exemplo, sinto que as minhas viagens terminaram, o Cerro Fitz Roy era minha última reserva e ela está cumprida e continuar sem saber se está indo ou voltando me parece inviável. De qualquer maneira prevendo que esta seja minha última viagem para cá retornarei pelo Paso Libertadores onde me despedirei do meu amor verdadeiro quando se fala em montanhas que é a grande dama Aconcagua e depois irei até o deserto do Atacama onde voltarei para Argentina pelo Paso de Jama. 

Agora já vinte e uma horas e voltei da janta, tive que ligar a calefação da casa porque o frio e o vento lá fora estão absurdos e eu estou congelado. 

10.01.2012 

Está muito frio e o Fitz Roy dobrou seus cobertores. Meu café da manhã fica a oito quadras daqui e a Marta que me desculpe já que hoje ela iria fazer uma limpeza no motorhome, então sem foto e apenas um até breve que me soou como falso. O camping custa R$12,00 p/dia com ótima energia. 

Comi as minhas panquecas e também me despedi da Soledad que foi muito gentil neste breve período e enquanto abastecia (Diesel tinha, gasolina não) troquei figurinhas de como era o inverno aqui e também já tinha feito isto com a Soledad. Sintetizando: A maior parte da população vai embora, ficam abertos dois hotéis, supermercado, posto de combustível e o pessoal que mantém a cidade viva (suporte para energia, limpa neve, etc.), a temperatura vai para 25° negativos. A estrada fica interditada a maior parte do tempo e em intervalos é limpa para passar ônibus e outros todos usando correntes nos pneus. 

Acredito eu, que deve ser maravilhosa esta época aqui em beleza, o próprio frio tão violento machuca menos porque é seco, as vezes 10° positivo quando úmido é pior a sensação. Agora quando venta aí o frio faz queimaduras e dói. 

A cidade fica muito próxima do Fitz e da cadeia de montanhas que o compõe, um pedaço extraordinário é chamado de Techado Negro, uma montanha que justifica plenamente esta imagem de teclado e de cor, o curioso é que no meio desde a parte de cima até embaixo forma uma bacia lotada de neve acredito eterna já que em pleno janeiro ela estava transbordando e acho que enchendo mais e explico abaixo. 

Já na estrada depois de La Esperanza começaram a cair umas gotas de chuva muito densas o que me fez pensar na primeira viagem que a Iara e eu fizemos para os Andes para ver neve e o Aconcagua, começou assim com gotas pesadas no vidro e não escorrem e depois para a nossa alegria mais acima viraram uma nevasca! Na estrada eu via em vários lugares nuvens imensas despejando o que de primeira impressão chuva, mas só depois de Rio Gallego eu peguei uma e coisas da Patagônia - Era neve! Não da forma definitiva como a conhecemos e sim como um gelo bem areado, não pude bater uma foto porque a quantidade era muita e parar seria um perigo com os carros na pista. Entupiu meu pára-brisa, minha lateral e meu prazer, mesmo que guiar nesta condição dá arrepios. Isto explica a quantidade de neve que estava nos Andes. A temperatura regula muito com a altura, o Fitz Roy tem 3.445 metros e aí qualquer umidade vira gelo. Este mês não acredito que algum alpinista consiga em dezembro passado alguns conseguiram. 

No momento desta neve eu estava em um altiplano tanto que quando baixei já em direção a San Julian choveu novamente e era água liquida. 

Dei uma entrada na cidade para repetir um momento que a Iara eu vivemos quando visitamos a réplica da nau Vitória do Fernão de Magalhães. Nesta época era inverno e inúmeras vezes em variados lugares as pessoas diziam que nós devíamos ser os únicos turistas na região, assim foi na península Valdez e em outro lugar onde com um doido que cuidava de uma fábrica de processamento de peixe nos acompanhou até um parque que havia uma pinguineira e quando chegamos lá depois de um rali doido terminamos com o motorhome desaparecido no meio de tanta lama grudada e o guarda parque surpreendido conosco falou que naquela época ele nunca ia para a cidade por causa da dificuldade da estrada e arf! tínhamos que voltar! 

Naquela época estava estupidamente frio, mas dentro de mim havia o calor da Iara, hoje tudo é somente frio. 

 Nós entramos na caravela e lá estavam o Fernão de Magalhães e sua tripulação!

 11.01.2012 

Acordei com o cérebro aguçado e as memórias vinham em borbotões enquanto eu ficava olhando o amanhecer em Puerto San Julian. Lembrei-me daquilo que foi a pedra da roseta no meu relacionamento com a Iara. Bem disse um conselheiro de casais em um tempo anterior a ela, a briga não sai porque alguém esqueceu a pasta de dente aberta e sim por um assunto anterior mal resolvido transferido a este detalhe. 

Passei por Caleta Olivia novamente e continuo achando a cidade deliciosa, mas, não vejo muitas condições de conviver com a língua castelhana. Além disto, fui colocando outras situações como literatura, conversação e outras situações de relacionamento e decidi por enquanto que não posso viver sem o Domingo do Faustão! 

Mesmo assim parei para tomar um café embora já fosse próxima a hora do almoço. Não havia porque eles estavam fazendo limpeza. Escolhi um mimo para levar para a minha querida Marta (A de São José e não a de Chaltén) que é um chaveiro com o seu nome, mais de dez minutos para concluir isto e ainda porque eu peguei o dinheiro e deixei em cima do balcão e saí. De castigo soltei minha caixa de detritos e água servida na frente e saí para esmagar qualquer muriçoca que entrasse na frente da minha casa. 

No momento estou parado na concessionária Scania em Comodoro Rivadavia, almocei duas latas de atum com batatas da Gomes de Sá com acompanhamento de umas bolachas Club Social, uma delícia e recomendo! 

E a concessionária? Horário de almoço! Abre as 14:30h. 

Deu para sentir que eu estava com a pá virada e aí aconteceu a mágica argentina. O atendimento foi ótimo na concessionária Feadar. Gente que trabalha com amor e precisão. Rapidamente fizeram a revisão e isto com muita interação e até um cheiro de romance com a Margarita embora tenha se esquecido de perguntar se ela era solteira. Muitos visitaram o motorhome e tudo isto pela primeira vez me fez ter orgulho de estar com a marca Scania. Na foto abaixo já estou com a camiseta da concessionária, obrigado Héctor! 

 Da direita para a esquerda Héctor, Alfredo, Hector, agachado Federico, eu e Walter. 

Esta menção a Margarita é curiosa em um relato dedicado a Iara e digo por quê: Ela foi à última pessoa que eu me despedi e tinha um tipo físico muito semelhante à Iara e aí olhando a boca, ah a boca me veio violento as dores da saudade. 

Agora estou parado e escrevendo em Sarmiento em um posto ACA no mesmo lugar em que há muitos anos atrás a Iara e eu ficamos parados. 

Encontrei aqui o Álvaro de Mogi das Cruzes que está viajando com uma super moto Ténéré da Yamaha. Ele iniciou a viagem em comboio, agora solo ele vai descer até o fim do mundo. Trocamos figurinhas. 

A pedreira da estrada do Chile me cobrou um preço, meu sistema de escoamento de água se estilhaçou e ainda bem que depois da válvula de contenção. Falando com o Alfredo da Feadar ele comentou que o mais comum é arrebentar com o sistema que faz o balanceamento da suspensão. Ainda bem que desisti e agora estou curioso para saber como o comboio vai se sair nesta. 

Um dos motorhomes do comboio é um ex meu em que eu preparei a suspensão para o asfalto com enorme sucesso, a estabilidade dele é extraordinária, só que numa estrada como esta é muito dura, como os outros dois são carros pequenos assimilam muito melhor este tipo de piso. Agora uma coisa é igual para todos, os sistemas da casa ficam expostos. Na viagem que eu fui para o Ushuaia meu motorhome era uma Sprinter da Motor Trailer de Pirassununga e toda parte hidráulica e elétrica fica dentro da casa protegida. Quem sabe eles leiam este blog e coloquem os seus acontecidos nos comentários. 

12.01.2012 

Nesta latitude o anoitecer já é mais cedo assim como o amanhecer começa a ter semelhança com o meu cotidiano, o frio também amenizou um pouco. 

Estou viajando a um tempo cortando a imensa pradaria entre Sarmiento e Esquel, a minha esquerda grandes colinas com seus cumes nevados e isto em janeiro. 

Minha mente se povoa de pensamentos, diferente das estradas brasileiras em que qualquer desatenção cobra um preço e o dirigir não dão muito espaço, aqui é ao contrário, as retas se medem por centenas de quilômetros e a divagação é a maior companheira. Azar neste espaço é que trouxe a coleção quase completa do Chico e justamente agora nestes últimos CDs ouvidos estou na pior parte dela. Talvez isto mude porque em breve estarei na estrada El Bolson/Bariloche que é uma das mais lindas que conheço e vá que o Chico entre no clima. 

Penso que este relato que dedico a Iara justamente por ela não será lido, seu jeito de ser, seu jeito de fazer e seu jeito de esquecer me palpitam que nada referente a mim será procurado na internet. Esta página terá visitas sim, surpreendentemente o registro acusa mais de catorze mil delas e acredito deve ser de pessoas que digitam no Google palavras ligadas a Patagônia, mas, eu escrevo para mim mesmo tanto para reler e viajar novamente como também para alterar o meu dia não me deixando cair em marasmo, explico, sabendo que irei por no papel não deixo nenhum pensamento ficar ao acaso ou uma situação ser apenas o cotidiano. 

Vou almoçar meu atum com batatas não porque não tenha opção já que vejo um comedor aqui perto e sim porque é muito bom mesmo. 

Está chegando perto do meu trajeto favorito e decidi fazê-lo em grande estilo então virei à esquerda e fui para Esquel para deixar minha casa completa em tudo inclusive com os vidros dianteiros limpos, tomar banho e trocar de roupa. Surpreendente como sozinho estas necessidades são diferentes. Ops isto pode espantar as quarenta virgens que me aguardam pós-morte (Sim, eu professo a religião muçulmana para este caso) então eu aviso que as partes pudendas sempre estão clean, chuveirinho no sanitário faz a mágica, no resto é apenas sal da vida. 

Antigamente eu parava em uma YPF que me disponibilizava tudo isto, agora tem um posto Petrobrás logo na entrada então aproveitei que não havia fila. Quem me atendeu foi o Pedro e aí vai a sua história: Pedro nasceu no Chile e atualmente é radicado na Argentina. Pela internet ele conheceu uma pessoa do Brasil que se denominava Loira. Um ano e meio com troca de mensagens verdadeiras até ambos se encontrarem em Bariloche. O nome dela é Ana Paula, mineira de Esmeralda uma cidade próxima a Belo Horizonte. Hoje são casados e tem um filho chamado Pedro Gabriel e moram aqui em Esquel. Engraçado foi que eu conversando com o Pedro comentei de como eu entendia bem o que ele falava e daí eu percebi que ele estava falando em português hehehe. 

 Direita para esquerda - Marco, Vanessa (ler abaixo), Pedro Faundez o muito simpático chileno e eu. 

Estou começando a limpar o painel do ônibus e eis que se aproxima um rapaz e me cumprimenta. Era o André, brasileiro de Cascavel e outro apaixonado pela Argentina, ele estava viajando com o Marco e a Vanessa. A conversa foi longa por este nosso amor em comum pelas estradas. Eles basicamente fizeram o mesmo caminho que eu com a diferença que do Calafate eles vieram por dentro (600 km de rípel) e obviamente se divertiram muito mais embora o custo pedradas não os isente. Cascavel é obvio que conhecem o Pachenki inclusive o Marco foi professor do Eduardo irmão do Diogo. Conversa deliciosa regada a café e depois uma foto para recordação. 

 Esquerda para a direita: Marco Sella, Vanessa Wiebbelling, André Chrun e eu. 

No retorno irei passar em Cascavel para conversar novamente com o Diogo e já é certo que iremos nos encontrar novamente. Eles não sabem que eu leio o futuro e eu li e nele estava escrito que um motorhome irá entrar na vida deles como a melhor coisa material acontecida assim como o foi para mim. 

Escrevendo vou enrolando o banho embora com o sol batendo firme na casa o calor está muito propício para isto. 

Mais uma enroladinha, eu comentei a quantidade de motor homes da Europa que se encontram na região então vai abaixo uma foto de um da Alemanha que está parado aqui no posto. 

 Bati esta foto antes enquanto punha diesel na casa. Depois vi o casal e pensei em fotografá-los juntos, mas daí... 

Agora chega, vou tomar banho! Não vou limpar a casa, pois isto aumentaria em muito a saudade da Iara que sempre teve prazer em fazer isto. 

Acabei limpando, uma vantagem da Patagônia é não haver pó então... 

Obviamente já aprendi alguns truques como, por exemplo, os tapetes dos banheiros eu dobro eles então tenho quatro faces para usar antes de lavar, toalha de banho e rosto só as uso depois que estou limpo então duram muito tempo. Manchas no chão limpa vidros nelas mais uma vassourada e uma aspirada e tudo continua meio sujo. 

Uma foto a partir da cabeceira da minha cama já que estou banhado e ainda é cedo para jantar. O Pedro convidou-me para jantar com sua família, infelizmente as vinte e três horas então eu recusei, desayuno então falou ele, nove horas da manhã, também não. Os horários da Argentina não combinam com o meu ciclo de vida em compensação os baianos fariam festa aqui. 

 Meu quarto, na seqüência dois banheiros, cozinha e sala de jantar, sala de visita e escritório. Na frente meu cockpit. Do lado externo tem lavanderia, garagem para moto e móveis para uma sala externa. A energia vem de um gerador Generac 5500 e a casa dispõe também de calefação a gás e ar condicionado de teto. O chassi e motor são Scania sendo que o último tem 9 litros 310 hps, câmbio semi-automático por joystick e controle automático de velocidade. E a Iara não está comigo... 

13.01.2012 

Aleluia às sete da manhã havia café no posto e com uma mistura deliciosa e fresca. Este lado da Argentina sempre me surpreende com coisas boas como uma vez em Neuquén em que a Iara e eu estávamos com um motorhome Iveco e no caminho quebrou o suporte do compressor de ar (adaptado). Dormimos na frente da concessionária e fomos o primeiro a ser atendido. Atenciosos puseram a disposição um mecânico (Luis) que trabalhou seis horas diretas no problema já que para fazer uma nova base teve que sacar a frente inteira do carro. Na hora de acertar a conta ZERO! e mais, deram uma dúzia de camisetas da concessionária e acredito que a Iara até hoje as tenha, e mais, mapas de toda a região juntamente com as previsões climáticas. Na época o motorhome Iveco era uma novidade completa e eles ficaram felizes por um estar lá, mais acima de tudo porque isto também faz parte do espírito argentino de doação. Importante: Isto não é diferente no Brasil. 

Sempre falo da maravilha que é a estrada de El Bolsón a Bariloche ou ao contrário, aumentem um pouco e inclua Esquel no caminho, então fica Bariloche/ El Bolsón/Esquel. Quando fizeram o asfalto até o Calafate então... 

Passando por El Bolsón um anúncio de quadriciclos para alugar, imediatamente parei e já negociei uma saída às dez horas para um trajeto de duração de três horas. 

Diferentemente do resto da Patagônia aqui já há muitas florestas e conseqüentemente a trilha faz um pó danado. Fomos a um recanto muito bonito com um rio de pedras. O Daniel proprietário do Travesias en Cuatriciclos foi de guia e o passeio gostoso e simples. Serviu para matar a saudade do meu quadriciclo e embaixo as fotos do evento. 

Da direita para esquerda: Daniel Roquel (guia), no colo Santino Falcon, ao lado sua mãe Gabriela Falcon, Virginia Choqui, Florencia Choqui e eu. E de onde elas são? Caleta Olivia! 

 Esquerda para a direita: Virginia, Gabriela, Florencia, Santino e eu e o meu quadriciclo Can-Am amarelo.

 Logo ontem que eu tinha deixado a limpeza em dia me encontro agora de pó até nos redutos mais escondidos. Almocei na cidade um bifão de chorizo de gemer e neste momento escrevo parado na praça principal e sem animo da dar a partida para completar esta estrada fabulosa. 

Peguei a estrada e ela continua linda embora o rio que a margeasse tenha sido trocado por um lago gigantesco. Difícil de curtir a paisagem pelo excesso de turistas, a estrada já é tortinha e com eles a entupindo perde-se o prazer. 

Depois de Bariloche peguei um trafego lento, na primeira oportunidade abri e mandei ver passando uns trinta carros arf! dei de cara com um controle policial e stop Leopold. Aí foi curioso porque os motoristas das muriçocas todos passaram acenando para mim e falando da minha mãe querida. Bom o guarda pediu os documentos e perguntou-me o porquê da revolta dos outros, fiz que não entendesse nada e ele apenas pediu que eu fosse mais despacio. Agradeci e sai atrás dos caboclos que se lembraram da minha mãe. Quando eu comecei a engoli-los (meu alvo maior era uma S-10) alcancei um Bora que estava brincando de morto na estrada, foi eu começar a ultrapassá-lo e ele decidiu acelerar, nojento e maldoso, mas na estrada falar em maldade eu sabe ser o pior deles e lá cravei 110 bastando eu por meio ônibus na frente que iria fechá-lo legal e sem opção, i can’t believe! outro controle policial! Sorte que o bando estava olhando para o outro lado enquanto eu trepava no freio. O Bora entrou para esquerda. Ainda calmo e lúcido e já com o trafego bem mais reduzido e espalhado e o piloto automático em 90 fui passar um Ford Ka que alternava a velocidade entre 60 e 80. Mas não é que o idiota que dirigia fez a mesma coisa de acelerar. Na primeira voltei a minha mão e ele diminuiu a velocidade novamente, na segunda fui para bater com as dez e não deu outra ele acelerou e eu cravei ocupando um pedaço da faixa dele e pelo espelho vi o retrovisor a centímetros da minha lateral e tentei deixar a dois milímetros, mas ele freou e foi para o acostamento e só vi poeira. Meu corpo está sujo de pó de El Bolsón, mas a alma está lavada hehehe. 

Parei para dormir em Piedra de Áquila e eis que chega um ônibus do Brasil com os motoristas Marco e Júlio e todos os passageiros da Bahia indo para Bariloche e depois Chile. Baita logística uma viagem desta, eles já estavam a treze dias na estrada. 

Agora banho e cama e a Iara ainda na minha cabeça. 

De todas as maneiras

Que há de amar 

Nós já nos amamos 

Com todas as palavras feitas pra sangrar 

Já nos cortamos 

E agora que chegou a hora do amor mandar 

Eu fico sozinho a te esperar 

14.01.2012 

Se aproximando de Neuquén e parado antes em um lugar chamado El Chocón parque paleontológico, nada como tomar um café olhando dinossauros. 

Meu GPS Garmin indicou-me como caminho ao Aconcagua entrar na cidade de Neuquén, ele pensa em mim como carro pequeno e até aí não haveria problemas se na estrada não houvesse um artifício para proibir passagem de ônibus ou caminhão (Vista Alegre). Aí começou um episódio difícil e também confirma algo estranho que ocorre na Argentina. Há uns anos atrás a Iara e eu nos perdemos em Córdoba e quando pedíamos informação de como ir a San Luis encontrávamos muita dificuldade tanto que no final estávamos do outro lado da cidade. Daí eu mudei a pedida para Rio Cuarto e um guarda acabou nos comboiando até a estrada. Em Neuquén a pedida era Mendonza e motorista de táxi, frentista e outros todos desconheciam o caminho. Acabei achando uma solução precária em uma oficina de turismo onde depois de um bom atendimento e uma explicação de tudo que a cidade oferecia de passeios, compras, adegas, etc. acabou dando uma pista de como eu devia fazer para sair. Mesmo assim ainda havia dúvidas e tudo que eu colocava no GPS indicava para eu voltar pelo mesmo caminho e aí conheci a Luciana. Esperando um ônibus debaixo de um sol absurdo (o calor aqui está inenarrável) ela me informou que o caminho era aquele e se eu podia dar uma carona. 

15.01.2012 

Que tarde que transformou o dia de ontem em algo muito especial. Agora são seis horas da manhã e estou parado na frente da casa dela esperando-a acordar para me despedir. O calor continua muito forte e o ar condicionado luta para amenizá-lo. Voltei para a cama e dormi até as dez, depois ela veio com uma garrafa de café e meio pão bengala que reservei para comer depois. 

 Querida Luciana você tinha razão, o pão era ótimo, o almocei com salada de atum e azeite de oliva.

 Querida amiga foi maravilhoso te conhecer e suas lágrimas na despedida me dizem que foi mútuo! 

Estou escrevendo na cidade de Alvear e amanhã já estarei na cordilheira, penso em achar um camping em Uspallata para completar minha água e dar um trato na casa. 

16.01.2012 

Arf tem dia que não acordar seria ótimo, então tomei meu desjejum e andei mais, não estava engraçado então parei novamente no meio de umas arvores fora da estrada e fui dormir novamente para cumpri minha cota de pesadelos. Acordei e tomei um banho para ver se as coisas voltam ao normal e voltaram logo em seguida um posto YPF para a minha dose de café rejuvenescedora e com uma meia lua para acompanhar. Estas meias luas eu acho que são o nosso croissant embora não consiga me lembrar como é um, mas, são deliciosas e muito tradicionais em toda a Argentina. 

Segui viagem, a estrada por aqui é ladeada de ambos os lados por árvores, a região (San Rafael) é bastante habitada e grande produtora de frutas e vinhos. Passando um parque um anúncio de um camping chamou minha atenção pela grande entrada e eis eu parado dentro dele com água e mangueira do meu lado, eletricidade a minha frente e no estacionamento cabem motor homes de qualquer tamanho. O nome do camping é El Parador e fica no GPS (Plagiando o Renato e a Graça que sempre colocam as coordenadas de lugares importantes) S 34° 38.772' W068° 22.249'. Nisto de olhar a posição vi que o meu Garmin faz mais coisas, exemplo, posso a partir da onde estou ver onde tem a polícia mais perto, combustível e outros. Em um filme o artista Danny Glover diz Deus é um laboratório farmacêutico, Mencken diz que o termostato é a maior invenção humana e eu concordo com eles e incluo na santíssima trindade o GPS que aqui na Argentina ele está espetacularmente preciso! Meu palpite é que se houvesse a menor possibilidade da existência de Deus ele seria de nacionalidade americana! 

Agora a luta porque minha casa está uma zona e se a Iara estivesse comigo iria se divertir a grande e eu também cheirando o seu corpo, beijando, lambendo o sal e depois como éramos de costume levando a basura para fora. 

No sol sem problemas, energia elétrica poderosa garante o funcionamento do ar. E se estiver quente o camping oferece uma boa piscina. 

E aqui estou eu arrumando uma coisinha e voltando ao computador, toda a minha roupa já está entregue a Gladys para lavar e passar. Há pouco estava jogando um Plantas & Zumbis, as poucas crianças que passaram ao lado devem ter se contorcido ao verem o tamanho do vídeo game e quando eu o instalei pensei muito na Iara e até pus cinto de segurança caso ela quisesse jogar enquanto eu rodava. 

Hoje eu tenho apenas uma 

pedra no meu peito 

Exijo respeito, não sou mais um sonhador 

Chego a mudar de calçada 

Quando aparece uma flor 

E dou risada do grande amor 

Mentira  

Limpeza quase no fim. Almocei pela primeira vez uma dobradinha, tinha relutado até então porque ela precisa de uma panela para esquentar e na minha vida simples eu só compro enlatado que tenha a tampa que se destaca sem precisar de abridor, por isto minha dieta é salsicha, atum com salada de batatas e dobradinha que foram os únicos que encontrei com esta tampa. Sim também abro pacotes de bolacha e um voto de louvor ao Club Social que tem um sabor sensacional. Esqueci de uns patês de fígado que comprei aqui na Argentina com latinha abre-se fácil também. A dobradinha estava deliciosa e aleluia que comprei a farinha e a pimenta certa para combinarem. 

Devaneios: Em Neuquén na confusão da procura do caminho acabei parando em um camping para dar um descanso (não entrava ônibus), na recepção uma foto do Che Guevara o idiota menor de um bando de facínoras que levaram seus povos a uma miséria absurda e que agora parecem ressuscitarem nos Lulas da vida. Um exemplo pouco mencionado e que serve de ótima comparação foi a Alemanha dividida, o primeiro confronto direto entre a liberdade individual e o estado protetor. No começo a parte comunista da Alemanha foi impressionante com grandes desfiles e muita festa que logo terminaram porque sem comida e sem trabalho renumerado pela capacidade não há prosperidade e logo começou a imigração em massa para a Alemanha ocidental violentamente reprimida pelos guardiões do éden e aí vejam só quando eu completava oito anos de idade exatamente em 13 de agosto de 1961ergueram um muro para que os moradores do paraíso não pudessem escapar de lá. Assim foi a União Soviética com milhões de mortes, assim é com Cuba e assim desejam os nossos lideres tanto no Brasil como na Argentina e uma boa parte da América do Sul. 

Nós já somos uma sociedade em que os nossos jovens têm como meta de vida passar em um concurso público e pergunto: Qual o futuro desta sociedade? As sanguessugas sobrevivem porque ainda há muitos com sangue para doar agora quando elas forem à maioria o sangue irá acabar. 

17.01.2012 

Que inferno de noites mal dormidas então eu acordo de manhã faço um desjejum e volto para cama para novamente completar minha cota de pesadelos, não sei como mudar isto. 

Mais tarde fui procurar um café preto que a bela Gladys proprietária do camping me providenciou. Com a conversa rolando solta eis que chega o pessoal da televisão fazendo uma matéria sobre turismo, acabaram filmando minha casa e me fazendo uma entrevista que irá ao ar hoje à noite. 

 Da direita para a esquerda: Gladys, Gustavo o entrevistador, eu e infelizmente não registrei o nome do operador da câmara. 

Esta situação deu um grande salto na interação com outras pessoas do camping e aí vai a foto do grupo que visitou minha casa. 

 Da direita para a esquerda: Maria Julia, Rosa (Mãe da Gladys), Franco, eu, Mônica esposa do Rubén Persichitti, Gladys Argentina e sua neta Jazmin. 

Agora estou em casa esperando o Julio filho da Gladys que irá levar-me de carro para fazer um tour em San Rafael. À noite deveremos assistir todos juntos a reportagem da televisão. 

Já são duas horas e o Júlio não veio ou se veio eu não desci da casa e ainda nem almocei tudo porque abrindo os arquivos (raros porque em uma época eu perdi quase todos eles por falta de backup) encontro uma correspondência que enviei a minha irmã em 17.08.1998 avisando entre outras que tinha comprado o meu primeiro motorhome. Que pena que eu não tenha sido correspondido nas cartas que enviei, hoje seriam um excelente arquivo da nossa memória. O que então me mexeu muito foi que nela inclui uma foto da Iara e eu feita no momento em que eu digitava como se vê na tela do computador: 

Hoje de manhã tocando no rádio da recepção do camping a música Como vai você em castelhano. Te amo, te amo... 

Fora isto mais uns tantos arquivos, cópias de discursos, poucos perante a quantidade de coisas feitas e escritas que se perderam. Um sobrevivente curioso foi uma defesa que fiz a Ferrari e Jean Todt por ocasião do GP da Áustria em que o Rubens Barrichello recebeu ordens de dar passagem ao Michael Schumacher. 

Explicado porque Julio não apareceu, carro na oficina. Aproveitei e completei as águas da casa e mais tarde meu novo amigo argentino Rubén me levou para conhecer a cidade. Ia perder a televisão, mas não iria perder a oportunidade do passeio. No fim ambas as coisas deram certo, ou seja, no centro de San Rafael eu vi uma televisão ligada e pedimos para assistir o noticiário e eis que minha casa e eu fomos notícia por uns três ou quatro minutos e espero que minhas palavras tenham sido entendidas pelos argentinos como uma prova de afeto e gosto por sua terra. 

Esta história de televisão é interessante outra vez foi no Chile, estávamos a Iara e eu estacionados no deserto como era comum na época quando fomos filmados em uma reportagem sobre as flores do Atacama e o turismo. Até aí nada demais e talvez nunca viéssemos a tomar conhecimento se não assistíssemos a ela em nossa televisão por coincidência. Bom, não muita coincidência porque na época a televisão chilena tinha uns programas tão diferentes que a assistíamos com freqüência. 

Aproveitei também para comprar uma lembrança para a Iara e mais uma pedra local colhida em um rio próximo ao camping. Ela eu acredito nunca saberá deste relato. As lembranças físicas serão entregues através da Joana, quem sabe ela me ligue agradecendo, quem sabe me ligue dizendo que também me ama, quem sabe Bhagavad Gītā me indique o caminho da paz, quem sabe... 

Com o Rubén e seu filho Franco nós fomos além do passeio fazer um tira gosto com presunto que eu conheço como Pata Negra e vinho. Acabou virando janta com um complemento de uma hamburguesa completa. Tudo ótimo e o vinho fantástico, com ele fazendo efeito nos meus olhos seria ótimo ganhar de brinde uma boa noite de sono! 

18.01.2012 

Boa noite de sono? Nada de boa noite e ontem assisti a dois filmes até capotar. 

Minha roupa já está toda lavada e passada, guardá-la é outro negócio e vou fazê-lo hoje. A casa se desarruma com muita facilidade então... 

Já estou no Parque Aconcágua! Como eu amo esta parte dos Andes! Muitas coisas já aconteceram neste breve período, mas, o que está marcando é que em cada aproximação de uma montanha conhecida ou um trecho espetacular o choro me vêm copiosamente. Estou aqui e isto é emocionante! Ajuda também a lembrança da perda da minha mãe e da Iara.

Cheguei e o cume estava descoberto, obrigado minha montanha! obrigado Tiaraju por ter me trazido para conhecer esta dama! obrigado Iara por ter tantas vezes dividido as noites de um bilhão de estrelas, os tantos nascer do sol quando somente o cume se ilumina tão antes, por ter participado de tantas aventuras, lembra-se o túnel de gelo? aquela tempestade de neve que fez sumir o motorhome debaixo dela? aquela vez que saímos da estrada principal e pegamos a antiga e depois tivemos que voltar de marcha a ré a um palmo do desfiladeiro? Hoje quando passei por lá o resto já tinha caído e só um pedaço dela e o túnel permanecem. Hoje minhas lágrimas não param de cair porque esta montanha foi e é umas das grandes impressões da minha vida, e ela também me faz relembrar você com intensidade e sinto também que hoje e amanhã será a última vez que aqui estarei. 

Ela ficou nua como antevendo que na minha agonia eu não poderia esperar para vê-la! 

As coisas mudaram muito aqui, aumentaram o volume de sistemas para deixar a estrada livre no inverno e para entrar no parque tem-se que pagar ingresso. Somente os Andes continuam esmagadoramente gigantes! 

Quando cheguei o parque estava fechado (Cerra as dezoito e eram dezenove), porém havia uma brecha contornando o primeiro pátio de estacionamento e entrei ao lado dos portões fechados. Eu já há tinha visto da estrada a descoberto e neste momento não conseguiria imaginar alguma coisa impedindo de eu me aproximar. 

Chegar ao estacionamento principal eu chegou, depois já é outra história, um casal de guarda parques veio aonde eu estacionei e: como entrei? não pode ficar! Não saio disse eu então eles me convidaram a ir falar com o chefe que se chama Rubén. Suerte! Um homem que entende o amor pela montanha, apenas pediu então que pela manhã eu descesse e pagasse a entrada coisa que sem dúvida iria fazer de qualquer maneira. 

Por hoje encerro, as emoções me esgotam e anoitece nas franjas do Aconcagua, somente ela será a última a apagar. 

Anoitecer na janela da minha casa. 

19.01.2012 

Três horas da manhã e estou acordado vendo as estrelas, frio. Tomo meu chocolate com bolachas e iria aguardar o amanhecer, silencio absoluto e nenhuma luz artificial quando apago as minhas. Adormeci e acordei dia claro. 

Dei uma volta a pé e o pessoal do parque já está preparando os fardos com alimentação para o helicóptero levar para os diversos acampamentos que fazem a rota de escalada. Desci a entrada do parque para acertar o ticket de entrada, como não levei documentos voltarei depois. 

Indo para a entrada do parque eu bati esta foto para tentar nela dar uma dimensão de grandeza, minha casa está quase no centro da foto. Impossível, só ao vivo sente-se isto. 

O peito também se emociona, a volta da entrada do parque ao estacionamento é arf, arf, arf... 

Enquanto escrevia aqui o helicóptero voltou trazendo o lixo das praças e o depositou próximo, pela quantidade muita gente acima e com este dia maravilhoso talvez alguns tenham sucesso em atingir o cume. 

A todos que tentam, a todos que conseguem e a todos que amam esta montanha minha homenagem na foto do primeiro que a conquistou. 

 Matthias Zurbriggen 

São 21:35h e estou no Chile a uns 300 quilômetros de La Serena e uns mil e trezentos de Antofagasta, já jantei muito bem em um posto Copec inclusive com uma ótima e grande salada que por algum motivo meu corpo a tem desejado. 

Saí do Parque Aconcagua, antes parei novamente na portaria para acertar o pagamento da entrada, foram atenciosos embora tivesse que enfrentar uma fila para chegar minha vez. Rumei para a fronteira e dei uma parada em Las Cuevas para tomar um café. Em San Rafael o Rubén tinha me comentado sobre uma estrada de terra que leva a uma estátua do Cristo e onde tomei café tentei convencer o dono a me levar, ele falou que teria muito gosto, porém já se aproximava a hora do almoço e ele tinha que ficar já que segundo ele levava mais de hora para ir e para voltar e me apontou justamente a entrada da estrada em que há um arco com informações embaixo e lá falou que eu arrumaria um carro. Deixei minha casa lá e fui andar aqui nunca é de graça ou sobe-se muito ou desce-se muito. Na estrada já de ripel passou um casal de argentinos em um Renault Sandero e diminuiu a velocidade, ou para ver aquele estranho ser cuja língua estava raspando o chão ou por entender que eu adoraria uma carona e assim o foi. Sobe-se, sobe-se e sobe-se. 

A ponta lá atrás da grande montanha é o cume do Aconcagua, foto tirada de dentro do carro a meio caminho do Cristo Redentor. 

Anos vindo para cá e nunca me interessei, o que eu estava perdendo! E mais, na base do Cristo tem a saída para um cume (+ 150 metros de escalada) que pode me dar um orgulho de conquista. Hoje não porque além do vento gelado minha cabeça está doendo muito pelo efeito altitude. 

Nada como um chocolate quente com uma aguardente típico misturado e aí encontrei um casal brasileiro do Rio de Janeiro: 

Da direita para a esquerda: Leila Santos, Ivan Menezes, o chileno que estava pondo uma aguardente chamada pirke no meu chocolate e chama-se Billy Johns e eu. 

O Aconcagua agitando um lenço de nuvens na despedida: 

Foto by Nicolas Vera 

Mais um chocolate quente com pirke e aí o Billy dobrou a dose, vai custar caro isto aí! E uma foto de lembrança desta simpática família da cidade de La Plata. 

Da direita para a esquerda: Natália, Dario Vera, eu e o filho do casal Nicolas Vera. 

Eles me deixaram em Las Cuevas onde almocei um purê de batatas com carne ensopada, comi pouco porque a cabeça carregava a banda da academia de West Point tocando a todo vapor. A solução é descer então... 

Um tempão na fronteira que fica a três mil metros de altura, fila errada e depois mais filas. 

Terceira fila e haveria mais duas. As aduanas Argentina e Chile agora ficam no mesmo local. 

Tudo terminou com boa atenção embora demorada, desci os Caracoles e lá embaixo já fiquei bom da dor embora o martírio fosse começar. 

Estão construindo uma praça de pedágio e dei uma gemidinha porque não tinha pegado os pesos chilenos, ops, ainda não estão cobrando, eu vejo a passagem toda marcada de batidas (recém construída) e me arrepia, fico a uma distância do caminhão a minha frente e lentamente pimba! meu rodoar engata na parede e é arrancado. Parei imediatamente com o prejuízo assegurado. O pessoal que estava construindo veio me ajudar na manobra que foi incrivelmente difícil fazendo a fila de ambos os lados ficarem enormes, depois estacionado do lado para desmontar os pedaços o comentário que o engenheiro daquela obra era um bêbado por fazer a passagem tão estreita e que quando estivesse funcionando haveria uma passagem lateral. 

Continuei já olhando para os caminhões e ônibus procurando ver se eles estavam usando este sistema de controlar a pressão nos pneus e nada, ninguém e vi um mercado gigantesco aberto aqui no Chile para uma indústria que faça isto. Eu olhava porque se eles tivessem significaria que eu encontraria quem vendesse as peças. 

Já na Rota 5 pedágio again, estreitíssimo e no primeiro passei sem encostar embora que a distância que me separasse  fosse minúscula. No segundo sem jeito, no instante que o rodoar tocou a parede eu parei sem nenhum dano. Uma bagunça porque ninguém vinha auxiliar, depois veio uma mulher e não tinha a menor idéia do que fazer então eu desci do ônibus e vi que não passava mesmo naquela última parede, então eu subia dava uma ré e entortava o ônibus pondo a traseira na calçada, voltava, media, ia, descia do ônibus para olhar, ré, frente, descia... 

Está aí a explicação porque ninguém usa rodoar, aquele mínimo a mais para fora da roda inviabiliza os pedágios. No terceiro já usei a via alternativa e ainda tinha que passar o túnel quilométrico, mardita cachaça, logo eu que não bebo fui inventar. 

Tudo bem e de agora em diante só muita rota até San Pedro e eis que numa passagem para sexta marcha neca do câmbio funcionar. Parei no acostamento peguei a caixa de ferramentas para tirar uma placa que dá acesso a um sistema de emergência para esta situação que deve ser comum em uma Scania já que eles tiveram o trabalho de deixar esta opção. O ônibus fica apenas com a segunda, quarta e quinta marcha disponível. No primeiro SOS que encontrei parei e fiquei com a impressão que ele não funcionou, só havia uma voz repetitiva: um momento, por favor... 

Esperei passar um caminhão Scania e pedi socorro, bonito de ver o caboclo freando já que aqui a velocidade permitida é 120. Expliquei para ele o ocorrido e pedi o favor de ligar para o 0800 da Scania, um parto ou um disque piada, um tempão ele falando, depois eu, uma hora pedindo que eu fizesse um depósito para eles enviarem socorro, outra para eles darem um endereço da concessionária mais próxima e nada, nós desistimos e me propus a me arrastar a uma cidade mais próxima para tentar outro tipo de ajuda. Tchau ao amigo tão prestimoso! 

Voltei ao ônibus e recomecei as tentativas, restart, liga, desliga, chacoalha e quando olho uma camionete Toyota parada a minha frente com uma pessoa perguntando se precisava de ajuda. Um casal simpaticíssimo Miguel Angel Cardoza e sua esposa Clara, ambos camioneiros (Volvo) e estavam indo em férias para uma praia adiante. Como ele trabalhou muito tempo no Brasil tinha um português bastante fluente e lá fomos novamente para o 0800 Disque piada Scania e eita piada sem fim, nós conseguimos um número de telefone de uma concessionária e aí a resposta, eles só poderiam vir se o 0800 autorizassem. Desistimos. O Miguel ligou para um mecânico amigo e enquanto isto chegou o socorro da rota. A decisão ficou que eu retornaria a Santiago (+- 170 km) a cinqüenta quilômetros por hora. Nisto voltamos a mexer e a raciocinar de como o meu câmbio funcionava, quando eu mencionei que devia ser impulsos elétricos o Miguel pediu para eu desligar a geral do ônibus, eu já tinha feito isto e repeti e nada e aí GRANDE MIGUEL! perguntou se a posição do botão de emergência estava correto e não estava! Funcionou. 

Querido amigo Miguel e Clara, se vocês estão lendo aqui é porque já liguei para vocês do Brasil, então renovo os meus agradecimentos e gente como vocês é o grande valor da raça humana que dão de si sem pensar em si! 

20.01.2012 

Uma parte deste relato acima foi escrita de hoje de manhã, ontem escrevendo capotei no cansaço. Agora irei tomar meu café da manhã que já vi na fotografia, ovos mexidos com torradas e outras coisas. 

Parado em Copiapó, cidade que foi a porta de entrada do Rali Dacar no Chile. A Iara e eu tivemos a mesma opinião a última vez que estivemos neste país, quando eu já estiver na Argentina falarei das minhas sensações. Aqui já é o deserto do Atacama. Mais dois ou três dias para cruzar os Andes novamente. 

Uma parte do tempo hoje eu viajei pela costa, onde eu dormi já era frente para o mar. A orla do Pacifico é maravilhosa, infelizmente o céu estava nublado e neblina baixa que ensopava o pára-brisa. 

Eu completei meu tanque de água em La Serena numa mangueira que usam para regar os gramados, já tínhamos feito isto em Iquique e é o mais prático que tem. 

Agora estou escrevendo porque pouco antes de parar tomei um Red Bull, minha intenção era continuar e eis que em seguida aparece um posto Copec, o último dos próximos 1.000 km eu acho (A quilometragem porque o posto eu tenho certeza pelo mapa deles). Este maldito dá asas mesmo. 

Gostaria de saber como está o comboio? Eu digo que não aprendi sobre isto agora viajar nas férias é a coisa mais imbecil, eu sabia por pressentimento tanto que nunca viajei nesta época em época nenhuma, a realidade é muito pior, mas muito mais mesmo. 

Hoje Iara a saudade que sinto de você é mais porque você passaria um balsamo nas minhas pernas cujos músculos estão ressentidos das caminhadas. 

Faz tempo que não usufruo nenhum prazer nas viagens, forço e faço de conta, então já há alguns dias tomei a decisão de vendê-lo quando chegar ao Brasil. 

E isto sem saber qual o meu próximo passo. 

Preciso não dormir 

Até se consumar 

O tempo 

Da gente 

Preciso conduzir 

Um tempo de te amar 

Te amando devagar 

E urgentemente 

Pretendo descobrir 

No último momento 

Um tempo que refaz o que desfez 

Que recolhe todo o sentimento 

E bota no corpo uma outra vez 

Prometo te querer 

Até o amor cair 

Doente 

Doente 

Prefiro então partir 

A tempo de poder 

A gente se desvencilhar da gente 

Depois de te perder 

Te encontro, com certeza 

Talvez num tempo da delicadeza 

Onde não diremos nada 

Nada aconteceu 

Apenas seguirei, como encantado 

Ao lado teu 

21.01.2012 

Estou em San Pedro de Atacama, que dia maravilhoso! 

Eu que estava por baixo em relação ao Chile mesmo sem conseguir um exato porque hoje aconteceu uma grande diferença. 

Talvez eu tiver dormido bem tenha ajudado. Acordei bem cedo e na estrada rodando aguardei o nascer do sol. Depois de ele estar brilhando a toda no deserto é que me aconteceu o deslumbramento: Eu estava atravessando o Atacama, um deserto único no seu tamanho e na secura, aqui nada de coisa viva se choca com o seu pára-brisa porque não existe nada vivo que se possa perceber. O cenário é surrealista e a imersão durou horas embora o dia tenha passado em minutos! 

Parei meio contra a vontade porque estava em êxtase, e outra porque fotografia é uma coisa tão pequena perto da imensidão que eu estava vivendo. O que aparece na foto se repete com nuances por centenas e centenas de quilômetros.   

Deserto do Atacama - Rota 5 Chile 

Cheguei a Calama ao entardecer e decidi ver o pôr do sol na estrada para San Pedro e não foi a melhor decisão. Poucos quilômetros rodados e a estrada interditada por um acidente de uma camionete cabine dupla, como não vi outro carro imagino que ele tenha perdido o controle ou por sono ou por uma falha mecânica. Foi grave o acidente a camionete assim mostrava, mas foi muito mais grave os seus ocupantes estarem sem cinto de segurança e seus corpos já cobertos estavam separados por distâncias que iam próximo a cinqüenta metros, eram quatro adultos pelo tamanho talvez uma ou duas crianças já que a lona que os cobria era pequena ou talvez fossem partes desmembradas. 

Este foi o segundo acidente que vi nesta viagem, o outro foi na rota 3 na Argentina e três pessoas morreram e também pelo mesmo motivo, porque em todos eles o cockpit estava com poucos danos mostrando que as células de proteção destas fábricas são de ótima qualidade. 

Não foi o acidente que me baixou a bola e sim o absurdo de movimento na estrada de San Pedro, então o pôr do sol primeiro que não é uma das minhas coisas preferidas e segunda porque anoiteceu e eu sei a paisagem que perdi. 

Queria abastecer, mas se mexer aqui na cidade está muito difícil pelo excesso de turistas então estou parado no estacionamento municipal e amanhã depois de encher o tanque Paso de Jama. Meu GPS indica 2.445 metros de altitude, amanhã em uma reta de quarenta e dois quilômetros irei subir para 4.600 metros medida esta que conferirei lá em cima. 

Ah, se já perdemos a noção da hora

Se juntos já jogamos tudo fora

Me conta agora como ei de partir

Se ao te conhecer, dei para sonhar, fiz

tantos desvarios

Rompi com o mundo

queimei meus navios

Me diz pra onde é que inda posso ir 

Se nós, nas travessuras

das noites eternas

Já confundimos tanto as nossas pernas

Diz com que pernas eu devo seguir 

Curiosidades esparsas: Ainda no comboio o Rogério Marcolino comentou enquanto conversamos sobre quem iria à frente - Se for estrada de pó eu vou à frente, se for de barro eu vou atrás e se tiver porteira eu vou ao meio. 

Na divisa da Patagônia tudo que é fruta ou carne tem que ser dispensada, o Carlos Martins na minha frente com as casas paradas para fiscalização decidiu comer todas as frutas que ainda tinham e eu pensei se eles barrassem o cigarro como seria eu fumando os cinqüenta pacotes que tinha no estoque. 

22.01.2012 

Tudo programado para ser um dia ótimo, mas quem conhece San Pedro sabe que duas bicicletas não passam ao mesmo tempo por aquelas ruas então não consegui chegar ao posto e isto significou que tive que fazer trocentas manobras em cada esquina. Aqui se faz e aqui se paga está funcionando comigo, queria tudo depois de um dia maravilhoso quis também que a noite fosse assim. Devia ter parado em Calama para abastecer. Conclusão eu tive que voltar até Calama jogando horas preciosas que me teriam evitado o próximo aborrecimento. E pior o posto em Calama fica no centro da cidade que não é assim uma coisa grande, só que significa ruas estreitas e as próprias concessionárias de caminhões estão enfiadas lá dentro. Mas tinha café aleluia! Outra coisa boa é que fiz o trajeto de dia e ele é fabuloso porque até se treina para o Jama. Para San Pedro desce-se porque vida possível nestas alturas é sempre no vale como disse o alpinista e escritor Rodrigo Raineri e são dezesseis quilômetros com a mesma inclinação de Jama (lá são 42), sobe-se em quinta e desce-se trepado no freio.  

Voltei a San Pedro e vamos ao Jama. Arf, o horário que eu perdi me fez chegar junto com 8.932 turistas na aduana chilena. O resultado e porque não fazer isto comento depois. 

E vamos ao Jama! Pau na subida doida, quinta marcha, 50 quilômetros por hora sem escolha. Caminhão carregado parou ficou somente com outro descarregado engatado saí do lugar, eu vi. Alguns carros com motores fervendo, maior volume de cacos de caminhão ou metais retorcidos por incêndio. 

Chega-se a 4.830 metros de altura pelo GPS. 

Quando estive aqui com a Iara minha imagem desta subida ou descida era uma reta e hoje não era, ou eles mudaram ou meu raciocínio estava embotado. De qualquer maneira uma coisa não tinha antes que são rampas de emergência e são muitas então pode ser que eles tenham mudado alguma coisa. De qualquer maneira são curvas longas que fica a coisa meio reta. 

Jama é uma loucura de bom, nomeio oficialmente pelas estradas que já percorri a mais difícil de todas! E a mais fantástica de todas! Não confundir com uma estrada linda como a de El Bolsón que se faz a passo de valsa, no Jama as coisas são monstruosas e sem ver com seus próprios olhos palavras não irão representar muita coisa e menos ainda fotos. O componente que endurece fortemente este trajeto é ar, outras são as subidas e descidas que são feitas a velocidade de elevador como mostra o GPS que fica rolando os metros como velocímetro. 

Tinha pensado em parar na aduana argentina, tomar banho e talvez ficar para curtir o amanhecer, mas a falta de ar da altitude me deixou assustado com a possibilidade de não passar bem. 

Falando em aduana argentina baita tratamento eles deram, nem desci da casa e quando estava na fila os carros se movimentaram um pouco e eu não ia mexer o ônibus por causa de três metros e eis que chega um casal argentino e entra na minha frente e desceram do carro. A mulher com certeza estava com o mal das alturas e o cara era um destes lixos que a humanidade produz em quantidade acima do razoável. Como eu estava com medo deste problema de altitude e já com uma leve dor de cabeça não miei, mas, eis que surge o herói argentino fiscal da fronteira fazendo-os voltarem para o carro para irem para o fim da fila. Como alguns carros eles estavam desmontando tudo quem sabe não sobrasse para aquele casal também. Como comentei na minha vez entreguei os documentos pela janela, ele apenas me pediu um tempinho e cinco minutos depois voilá! 

Agora tem um posto YPF logo após e aí eu almocei, eram duas e trinta da tarde. 

Tomei duas aspirinas e pensei em dormir em Tilcara, então fui curtir o resto do Jama. O resto são mais 400 quilômetros de total delírio tanto que estou escrevendo perto de Salta próximo a meia noite tanta foi a excitação. 

Jama é um vale também só que a quatro mil metros de altura cercado pela cordilheira dos Andes (os 400 que referi acima são no vale). Pelo GPS a altura média é mais, diria 4.200 metros, pode parecer pouco e não é o nosso ouvido tampa em cada cinqüenta a cem metros que se sobe. Peguei-me com freqüência olhando a altura no GPS. 

A descida do Jama em direção ao Jujuy deixa os Caracoles como um jardim de infância, algo próximo para descrever, pegue a estrada da Graciosa e multiplique por dez. Hoje foi mais ainda porque as nuvens estavam no caminho! 

Conselhos: Hoje cometi uma série deles e todos têm seu preço. Primeiro se não estiver tudo perfeito não faça, é a aventura da vida rodoviária e o corpo tem que estar pedindo ela. Com todo este stress matinal eu iniciei a subida ainda tenso e rapidamente chega-se em uma altura que o oxigênio é cinqüenta por cento menos que o nível do mar. A Iara e eu na primeira vez passamos sem nenhum problema, hoje até nos movimentos simples a coisa pegava e não estava assim quando acordei. 

Segundo, novamente a tesão me fez mudar o plano, Tilcara estava a esquerda a um pulinho, ótimo posto com excelente restaurante, mas quando cheguei em baixo (2.400 metros de altura) a estrada que fica entre duas cadeias de montanhas para o lado de Jujuy fez-se um arco nas nuvens e no fundo o céu estava um azul da bandeira argentina e daí pensei, por lá eu arrumo outro posto. Hoje é domingo e só consegui para depois das dez da noite porque não tinha um posto no caminho. 

Perto do posto meu câmbio travou novamente em sétima, pois é Miguel você está coberto de razão quando comentou que a culpa era la mano, entendi porque trava e a culpa é minha mesmo ou com a complacência do Miguel a mão. Consegui entrar no posto e rapidamente ajeitei para emergência e depois sabia o que fazer para tudo voltar ao normal. 

23.01.2012 

Acordei novamente meia boca, tentei fazer que meus dois travesseiros que são de espuma da NASA se transformassem na Iara, até um ponto deu, mas a fantasia já necessita de apoio real e nesta mescla do que parece impossível de voltar acontecer fui tomar meu chocomilk com bolacha. 

Agora estou parado em um posto Refinor, mesma bandeira do posto que eu dormi,  já no chaco argentino, excelente o atendimento e vão me fornecer água para a casa, aproveitei e tomei meu primeiro café preto do dia. Finalmente encontrei a água mineral correta para meu ônibus, chama-se Kin e a embalagem é gordinha em relação as que conhecemos e com isto se encaixa perfeitamente bem nos suportes. O Senhor Guilherme pode construir bem a parte elétrica e hidráulica da casa, mas não entende nada do que é efetivamente usar uma casa rodante diariamente, o cockpit deixa muito a desejar assim como o guarda roupa no fim do ônibus. Explico: Tudo que pode cair com balanço deve ficar para o meio da casa. No meio às vezes esqueço alguma coisa em cima do tampo de granito, por exemplo, e quando paro a coisa está lá ainda, agora no fundo o efeito é chicote o que significa eu ter que estar pendurando os cabides novamente com freqüência. Tem mais coisas também e são detalhes de falta de conhecimento, de qualquer maneira mesmo que eu fosse continuar não compraria um motorhome dele pela pessoa que ele é. Tanto ele como o senhor Natalin da Vettura Motor homes não assumem suas responsabilidades de pós venda e isto para mim é nojento. Motor home hoje tem nome e é Trailemar, fazem besteira fazem, só que não tem nenhum arrasta pé para consertar, além disto, o interior deles ficou imbatível em praticidade e a construção sempre é em uma carroceria de ônibus oficial o que garante uma guiada perfeita. Bom, a minha Scania está com uma guiada perfeita, se fosse então com uma carroceria oficial então... 

Curiosidade: Os passarinhos adoram uma carne quente e boa parte dos postos a gente os vê entrarem nos radiadores dos caminhões para comerem os insetos colados, agora no momento estou com a frente da casa cheia de pássaros, para o azar deles meu motor é traseiro. 

Agora chega de dança de banho, vou fazê-lo já e trocar de roupa, a Maria não vai entender porque quase não tenho roupa suja, em compensação as que estão, estão. 

Acho que meu último banho foi em San Rafael, depois disto cruzei os Andes duas vezes, atravessei o deserto de Atacama, subi, desci etc. Não fez falta e meu cheiro está gostoso. 

Cheiro gostoso? Ilógico, é o hidratante que passei no Atacama porque a minha pele estava um pergaminho. 

Um bando de pássaros para na minha janela para me ver escrevendo e a máquina está carregando a bateria, quando me levanto eles somem então os peguei lá fora no chão. 

Parafraseando os pescadores vocês precisam ver as fotos que perdi! 

Banho e chega de enrolação! 

Aproximando-me (300 km) de Resistência parado para pernoite em um posto ACA. O chaco é uma reta gigantesca, o inconveniente ser uma estrada que chacoalha muito embora no nordeste brasileiro ela fosse considerada autopista, perigo de animais na pista e pombas. Sobre esta última uma conversa em outra época com o Wilson Zocolotte Junior, atirador de skeet inclusive representou o Brasil nos jogos pan-americanos e vinha atirar em pombas no Uruguai, eu fiquei revoltado e ainda continuo sobre atirar por esporte em qualquer coisa viva com exceção de humanos, mas de fato ele tinha razão, estas pombas são ratos com asas e estão em milhões nesta região e sei pela vinda que entopem a província de Misiones também. Três não procriarão mais. 

24.01.2012 

Perto de Posadas e depois Brasil parado em um posto Petrobras argentino. 

Quando eu digo que quem não quer evitar achaques não passe em Corrientes e Entre Rios. Alguém pode perceber que é obrigatório passar por Corrientes só que neste caso é a cidade, aí se vira por Resistência e vai-se ou para Salta ou Mendonza. 

Este 600 quilômetros que faltam para a divisa são meio chatos, asfalto tapete, porém clima quente e muito úmido já que a estrada segue paralelo ao Rio Paraná. 

25.01.2012 

Escrevendo do posto Três Pinheiros já próximo a Guarapuava. Com uma fome tamanho família o bufê já tinha sido retirado, mas aqui é Brasil e quando queremos ser gentis somos imbatíveis, com presteza o responsável falou para mim se servir de saladas que ele ia providenciar um arroz com um bife. Eu que não como maionese em restaurante enchi o prato com ela, beterraba, maionese doce, picles e enquanto ia pondo comia uns pedaços de melão, o bife que veio era de um tamanho de uma tampa de panela grande. Então aqui estou eu que tinha secado o estomago trinta dias dilatando-o ao máximo numa vez só. 

Detalhe interessante que não deu certo fui eu ligar para o Diogo e neste caso eu pararia em Cascavel para jantarmos juntos, ele estava em Curitiba e vindo para Cascavel então combinamos de jantarmos aqui. Ele não estava e entendo porque, eu liguei de Foz e ele estava saindo de Curitiba, é quase o dobro de horário de viagem. 

Hoje acordei novamente esquisito, pelo menos um pesadelo me recordo, eu perdido com o motorhome tinha horário marcado com o Pedro Lorca um chileno amigo que mora em São José dos Pinhais e não conseguia me fazer entender com quem tentava informações, aí veio um guindaste e arrebentando o motorhome o colocou em cima de um caminhão. E pior, sonho em castelhano e nem assim consigo entender o que eles falam. 

A viagem até Foz foi tranqüila e rápida e chegando a Puerto Iguazu fui até o posto YPF para colocar diesel o suficiente para acabar com meus pesos argentinos, não havia diesel então... 

Então fui ao Duty Free Argentina e comprei um monte de coisas para presentear, como as bebidas eram a coisa mais bonita alguém vai ganhar gin da Inglaterra, vodka da Polônia, licores da Itália, amarula não sei da onde, licor de uísque que deve ser da escócia e alguma coisa francesa que não lembro mais. Este shopping na terra do ninguém é altamente sofisticado então impossível tentar comparar ele com o Paraguai. Completei com R$65,00. Em pesos argentinos tinha aproximadamente $600,00. 

Brasil, Brasil, parei de cara no posto Esso (o mesmo da outra viagem que consertou meu ar condicionado) chamado Paradão. Não existe na Argentina nenhum posto que se assemelhe a este, meu propósito consertar o Taco-ar quebrado no pedágio chileno. Tinha tudo e fizeram um serviço de primeira por R$110,00. Fui abastecer e não tinha descido da casa e já estavam lavando meus vidros. Aqui não tem horário de sesta. Duas coisas matam o operacional do argentino: excesso de mate (Veja o que acontece com os gaúchos) e este horário de trabalho maluco. 

26.01.2012 

Como é bom acordar cedo e ter café de coador e pão com manteiga na chapa. 

Estacionado na minha baia em São José dos Pinhais confiro o hodômetro 62.946 quilômetros, 13.439 percorridos. 

Correções que faço hoje dia vinte e sete: 

O pedágio só é caro no autopista de Mar Del Plata e nem tanto comparado aos absurdos brasileiros, os olhos de gato nesta estrada são iluminados e o efeito é magnífico. 

Rosa a mãe da Gladys no camping em San Rafael em conversa comentou que sua razão de vida é Evita e Perón. Disse-me que em 1.950 nesta mesma região não havia qualquer tipo de moeda e tudo era feito por escambo, foi Perón do partido Justicialista quem introduziu segundo ela o dinheiro na região. Uma história curiosa e não vejo porque não ser verdadeira já que ela tinha mais de vinte anos de idade e devia saber. E também o motivo dos Kirchner estar no poder já que são peronistas. 

A quantidade de postos de combustível aumentou bastante e acredito que não se rode mais que 300 ou 400 quilômetros. Agora se têm combustível no estoque é outra situação. 

Não consegui uma explicação clara porque pela segunda vez não consegui gostar da minha estadia no Chile, o Atacama me levou ao êxtase, as praias chilena são ótimas, as estradas boas com exceção dos pedágios e me questiono se não é isso, uma maldade interna que faz o simples ficar difícil. 

Não gosto da língua castelhana, nos homens não combina, nas mulheres deixam-nas vulgares e o som me irrita. Difícil acontecer eu me mudar para a Argentina por causa disto. 

E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima para socorrer
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr